Bâtard – Jack London

Originalmente publicado em The Cosmopolitan em junho de 1902 como “Diable – Um Cachorro”.
Conto em domínio público, disponível em inglês.
Tradução: Santiago Santos, novembro de 2015 | 5.855 palavras

Bâtard era um demônio. Isso era reconhecido em todas as terras do norte. Era chamado de “Cria do Inferno” por muitos homens, mas seu mestre, Black Leclère, escolheu para ele o vergonhoso nome “Bâtard”. Fato é que Black Leclère também era um demônio e os dois estavam bem arranjados. Há um ditado que quando dois demônios se encontram, o estrago está feito. Isso é esperado, e era certamente esperado quando Bâtard e Black Leclère se encontraram. A primeira vez que se viram, Bâtard era um filhote meio crescido, esguio e esfomeado, de olhos amargurados; e se conheceram com mordida e rosnado e olhares perversos, pois o lábio superior de Leclère tinha um jeito lupino de se erguer e mostrar os dentes brancos e cruéis. E se ergueu então, e seus olhos cintilaram viciosamente ao pegar Bâtard e arrastá-lo para fora do enrosco da ninhada. Era certo que seus destinos estavam cruzados, pois no instante em que Bâtard afundou suas presas de filhote na mão de Leclère, Leclère friamente fechou os dedos e sufocou sua jovem vida.

“Sacredam”, o francês disse suavemente, chacoalhando o sangue fresco da mão mordida e encarando o pequeno filhote sufocando e engasgando na neve.

Leclère se virou para John Hamlin, encarregado do Armazém Milha Sessenta. “É pr’issu qui gostu deli. Cuãnto, eh, dis, M’sieu? Cuãnto? Compru eli já; compru eli agora”.

E porque o odiava com excessivo ódio amargurado, Léclere comprou Bâtard e lhe deu seu nome vergonhoso. E por cinco anos os dois se aventuraram pelas terras do norte, de St. Michael e o delta do Yukon aos extremos do Pelly, chegando a alcançar o Rio Peace, Athabasca e o Grande Lago do Escravo. E adquiriram uma reputação de maldade intransigente, do tipo que nunca antes se havia visto num homem e num cachorro.

Bâtard não conhecia seu pai – daí o seu nome -, mas, como John Hamlin sabia, o pai era um grande lobo cinzento. Mas a mãe de Bâtard, pelo pouco que lembrava dela, era rosnenta, briguenta, obscena, forte, de peito largo e robusto, com olhos malignos, vivaz como um gato e genial para artimanhas e perversidades. Não havia fé ou confiança nela. Somente se podia contar com sua astúcia, e seus flertes selvagens atestavam sua total depravação. Havia muita maldade e muita força neles, nos progenitores de Bâtard, e osso e carne de seu osso e carne, ele herdara tudo. E então veio Black Leclère, para meter sua mão pesada na pequena vida pulsante do filhote, para apertá-lo e espicaçá-lo e moldá-lo até se tornar uma grande besta eriçada, afiada em vilania, transbordando de ódio, sinistra, maligna, diabólica. Com um mestre apropriado, Bâtard poderia ter se tornado um cão de trenó ordinário e eficiente. Ele nunca teve a chance. Leclère confirmou sua iniquidade congênita.

A história de Bâtard e Leclère é uma história de guerra – de cinco anos cruéis e implacáveis, dos quais seu primeiro encontro é um resumo apropriado. A princípio a culpa era de Leclère, pois ele odiava com entendimento e inteligência, enquanto o filhote desajeitado e pernudo apenas cegamente, instintivamente, sem razão ou método. No início não havia refinamentos de crueldade (esses viriam mais tarde), mas espancamentos simples e brutalidades cruas. Em um desses episódios Bâtard machucou uma orelha. Ele nunca readquiriu o controle dos músculos dilacerados, e depois disso a orelha pendeu frouxa para manter viva a memória do seu algoz. E nunca esqueceu.

Sua infância foi um período de rebelião tola. Ele sempre era superado, mas lutava porque era sua natureza lutar. E era inquebrantável. Mesmo sob os ganidos estridentes da dor do chicote e do porrete era capaz de lançar um rosnado de desafio, a ameaça vingativa e amarga da sua alma que conquistava sem falha mais golpes e surras. Mas a sua era a vivacidade obstinada da sua mãe. Nada podia matá-lo. Ele prosperou no infortúnio, engordou com a fome, e do terrível embate pela vida desenvolveu uma inteligência sobrenatural. Possuía a furtividade e a astúcia do husky, sua mãe, e a ferocidade e a bravura do lobo, seu pai.

Possivelmente era por causa do seu pai que ele nunca chorava. Seus ganidos de filhote e suas pernas desajeitadas ficaram para trás, e ele se tornou sinistro e taciturno, rápido no ataque, imprevisível. Respondia a xingamentos com rosnados, e pancadas com mordidas, arreganhando os dentes com seu ódio implacável; mas nunca mais, nem sob a agonia mais extrema, Leclère arrancou dele um gemido de medo ou de dor. Essa inquebrantabilidade apenas alimentava a cólera de Leclère e inspirava diabruras piores.

Se Leclère dava a Bâtard meio peixe e a seus companheiros peixes inteiros, Bâtard se adiantava e roubava os peixes dos outros cachorros. Também roubava as provisões escondidas e arquitetava milhares de velhacarias, até se tornar um terror para todos os cães e donos de cães. Se Leclère batia em Bâtard e fazia carinho em Babette – Babette que não fazia metade do que ele fazia -, Batârd a derrubava na neve e quebrava sua pata traseira com as mandíbulas pesadas, para que Leclère fosse obrigado a atirar nela. Da mesma forma, em batalhas sangrentas, Bâtard dominava todos os companheiros, impunha a lei da trilha e pilhagem, e os obrigava a viver pela lei que impusera. Em cinco anos ouviu apenas uma palavra gentil, recebeu apenas um carinho de mão, e não sabia que tipo de coisas eram aquelas. Ele pulou como a coisa indomável que era e suas mandíbulas se juntaram em um instante. Foi o missionário de Sunrise, um recém-chegado ao país, que disse a palavra gentil e fez o carinho. E por seis meses depois disso ele não escreveu cartas para casa nos Estados Unidos, e o cirurgião em McQuestion viajou duzentas milhas no gelo para salvá-lo de uma infecção generalizada.

Homens e cachorros olhavam Bâtard de soslaio quando ele se esgueirava para dentro de seus acampamentos e armazéns. Os homens o cumprimentavam com pés ameaçadoramente erguidos para chutar, os cães com a pelagem eriçada e presas à mostra. Uma vez um homem chutou Bâtard, e Bâtard, com sua veloz mordida de lobo, fechou as mandíbulas como uma armadilha de ferro na panturrilha do homem até chegar ao osso. Como ele estava determinado a tomar sua vida, apenas Black Leclère, com olhos agourentos e faca de caça desembainhada, se enfiou no meio para impedir. A morte de Bâtard – ah, sacredam, isso era um prazer que Leclère reservava para si. Algum dia aconteceria, ou então – bah! quem poderia saber? De qualquer forma, o problema seria resolvido.

Pois eles haviam se tornado problemas um para o outro. O próprio ar que cada um respirava era um desafio e uma ameaça. Seu ódio os unia como o amor nunca seria capaz de unir. Leclère aguardava ansioso a chegada do dia em que Bâtard murcharia em espírito e se encolheria e choramingaria aos seus pés. E Bâtard – Leclère sabia o que estava na mente de Bâtard, e mais de uma vez lera isso nos seus olhos. E lera tão claramente que quando Bâtard estava às suas costas fazia questão de sempre olhar por sobre o ombro.

Os homens se admiravam quando Leclère recusava dinheiro pelo cachorro. “Algum dia você vai matá-lo e não valerá mais nada”, disse John Hamlin certa vez, quando Bâtard estava caído esbaforido na neve onde Leclère o havia chutado, e ninguém sabia se suas costelas estavam quebradas, e ninguém se arriscava a verificar.

“Issu”, disse Leclère, secamente, “issu é problem’eu, M’sieu.”

E os homens se admiravam que Bâtard não fugia. Eles não entendiam. Mas Leclère entendia. Ele era um homem que vivia boa parte do tempo a céu aberto, além do som da língua humana, e aprendera as vozes do vento e da tempestade, o suspiro da noite, o sussurro da madrugada, o estrondo do dia. De maneira tênue ele podia ouvir as coisas verdes crescendo, o correr da seiva, o desabrochar do botão. E conhecia a fala sutil das coisas que se moviam, do coelho na armadilha, do corvo carrancudo batendo no ar com sua asa oca, da vespa dançando sob a lua, o lobo como uma sombra cinzenta deslizando entre o crepúsculo e a escuridão. E para ele Bâtard falava de forma clara e direta. Ele entendia perfeitamente porque Bâtard não fugia, e olhava com mais frequência por sobre o ombro.

Quando enraivecido, Bâtard não era bonito de se ver, e mais de uma vez saltou na garganta de Leclère só para acabar estirado trêmulo e inconsciente na neve pela coronha vigilante do chicote. E assim Bâtard aprendeu a esperar. Quando alcançou a força plena no auge da juventude, achou que o tempo chegara. Ele tinha o peito largo, era poderosamente musculoso, de tamanho muito superior ao normal, e seu pescoço da cabeça aos ombros era uma massa de pelo eriçado – em aparência era um lobo puro-sangue. Leclère estava deitado dormindo em suas peles quando Bâtard decidiu que o tempo era propício. Ele se aproximou furtivamente, cabeça baixa na terra e orelha solitária esticada para trás, um caminhar macio e felino. Bâtard respirava gentilmente, muito gentilmente, e só ergueu a cabeça quando chegou bem perto. Pausou por um momento e olhou a garganta taurina bronzeada, pelada e enodoada, dilatando em um pulso estável e profundo. A baba pingava das presas e deslizava pela língua diante da visão, e nesse momento lembrou da orelha caída, das inúmeras pancadas e das injustiças prodigiosas, e sem o menor barulho avançou para o homem em seu sono.

Leclère acordou com a dor lancinante das presas na garganta e, perfeito animal que era, despertou lúcido e com compreensão plena. Ele fechou as duas mãos na traqueia de Bâtard e rolou para fora das peles para utilizar o seu peso. Mas os milhares de ancestrais de Bâtard haviam se agarrado às gargantas de inúmeros alces e caribus e os derrubado, e a sabedoria desses ancestrais era sua. Quando o peso de Leclère o sobrepujou, ele lançou as pernas traseiras para cima e para dentro, e rasgou peito e abdômen com suas garras, dilacerando pele e músculo. E quando sentiu o corpo do homem estremecer acima dele e se erguer, buliu e sacudiu a garganta. Seus companheiros fecharam ao redor um círculo rosnento, e Bâtard, perdendo fôlego e consciência, sabia que suas mandíbulas ansiavam por ele. Mas isso não importava – e sim o homem, o homem acima dele, e ele rasgou e arranhou, e sacudiu e buliu até seu último pingo de força. Mas Leclère o sufocou com ambas as mãos até que o peito de Bâtard arfou e se contorceu com a falta de ar, e seus olhos vitrificaram e travaram, e suas mandíbulas lentamente afrouxaram, e sua língua se projetou preta e inchada.

“Eh? Bon, seu demôniu!” Leclère gorgolejou, boca e garganta entupidas com o próprio sangue, enquanto empurrava o cachorro atordoado para longe dele.

E então Leclère xingou e afastou os outros cães enquanto caíam sobre Bâtard. Eles recuaram para um círculo maior, agachados atentamente em suas ancas e lambendo os beiços, o pelo em cada pescoço eriçado e rijo.

Bâtard se recuperou rapidamente, e ao som da voz de Leclère, vacilou até ficar em pé e oscilando para frente e para trás.

“A-h-ah! Seu grandi demôniu!” Leclére cuspiu. “Vo ti dá um jeitu; vo ti dá um belu dum jeitu, pur Deus!

Bâtard, o ar mordendo o caminho para dentro dos pulmões exaustos como vinho, desembestou a correr na direção do homem, as mandíbulas abrindo e fechando com um tique metálico. Eles rolaram e rolaram sobre a neve, Leclère batendo furiosamente com seus punhos. Então se separaram, cara a cara, e circularam para frente e para trás um contra o outro. Leclère podia ter sacado a faca. O rifle estava aos seus pés. Mas a besta nele estava acordada e enfurecida. Ele faria a coisa com suas mãos – e seus dentes. Bâtard saltou mas Leclère o derrubou com um soco, caiu sobre ele e afundou os dentes até o osso no ombro do cachorro.

Era um cenário primordial e uma cena primordial, tal qual poderia ter existido na juventude selvagem do mundo. Um espaço aberto em uma floresta escura, um ringue de cães-lobos de dentes arreganhados, e no centro duas bestas travando um combate, mordendo e rosnando, espumando de ira, ofegando, soluçando, xingando, vigorosos, exaltados e fascinados, numa fúria assassina, rasgando e dilacerando e arranhando numa brutalidade elemental.

Mas Leclère acertou Bâtard atrás da orelha com outro soco, derrubando-o, e, por um instante, imobilizando-o. Então Leclére pulou nele com seus pés e saltou várias vezes, na intenção de triturá-lo até enfiá-lo na terra. As duas patas traseiras de Bâtard estavam quebradas quando Leclère parou para recuperar o fôlego.

“A-a-ah! A-a-ah!” ele gritou, incapaz de falar, sacudindo seu punho ante a completa impotência da garganta e da laringe.

Mas Bâtard era indômito. Ele ficou ali, desconjuntado, seu lábio levantando e se contorcendo febrilmente para o rosnado que não possuía forças para proferir. Leclère o chutou, e as mandíbulas cansadas se fecharam no tornozelo mas não conseguiram furar a pele. Então Leclère apanhou o chicote e passou a quase cortá-lo em pedaços, a cada golpe da correia gritando: “Dessa veis eu ti kebro! Eh! Pur Deus! Eu ti kebro!”

No fim, exausto, desmaiando pela perda de sangue, se dobrou e desabou ao lado da vítima, e quando os cães-lobos se aproximaram para levar a cabo a vingança, com o último lapso de consciência arrastou o próprio corpo sobre Bâtard para protegê-lo de suas presas.

Isso ocorreu não muito longe de Sunrise, e o missionário, abrindo a porta para Leclère algumas horas mais tarde, ficou surpreso ao notar a ausência de Bâtard do grupo. Sua surpresa não diminuiu quando Leclère afastou os mantos do trenó, apanhou Bâtard nos braços e mancou soleira adentro. Calhou do cirurgião de McQuestion, que era uma espécie de aventureiro errante, estar por ali e ouvir a fofoca, e os dois se juntaram para cuidar de Leclère.

“Merci, non” ele disse. “Você arruma u caum primero. Morrê? Non. Issu nãu podi. Purque eu inda vo kebrá eli. Pur issu é qui eli nãu podi morrê.”

O cirurgião chamou de maravilha, o missionário de milagre, que Leclère tenha sobrevivido; e ele estava tão fraco que na primavera a febre o pegou e voltou a ficar de cama. Bâtard estava numa condição ainda pior, mas sua gana de viver prevaleceu, e os ossos de suas patas traseiras colaram, e seus órgãos se endireitaram durante as várias semanas que ficou atado ao chão. E quando Leclère, finalmente convalescente, pálido e trêmulo, foi à porta da cabana tomar um pouco de sol, Bâtard havia reafirmado a supremacia entre sua espécie, e subjugado não apenas seus companheiros como os cães do missionário.

Ele não contraiu um músculo nem crispou um pelo, quando, pela primeira vez, Leclère cambaleou apoiado no braço do missionário e afundou lentamente e com cuidado infinito no banco de três pernas.

“Bon!–” ele disse. “Bon! U sóu quenti!” E estendeu as mãos destroçadas e as banhou no calor.

Então seu olhar caiu sobre o cachorro, e a velha luz voltou a faiscar nos olhos. Ele tocou o missionário de leve no braço. “Mon père, essi é um grandi demôniu, essi Bâtard. Você vai mi trazê uma pistola, sim, pra qui eu póça bebê u sóu em pais.”

E assim por muitos dias ele sentou no sol diante da porta da cabana. Nunca dormiu, e a pistola sempre repousava em seus joelhos. Bâtard se acostumou, no início de cada dia, a procurar a arma no lugar de costume. Ao vê-la erguia ligeiramente o lábio como sinal de que entendia, e Leclère respondia erguendo seu próprio lábio num sorriso forçado. Um dia o missionário percebeu o truque.

“Virgem Maria!” ele disse. “Eu realmente acho que o bruto compreende.”

Leclére riu suavemente. “Veje você, mon père. Issu qui eu falu agora, issu tud’êli ouvi.”

Como se para confirmar, Bâtard perceptivelmente arrebitou a orelha solitária para captar o som.

“Eu digu ‘matu.’”

Bâtard deu um rugido do fundo da garganta, o pelo eriçado ao longo do pescoço, e cada músculo ficou tenso e expectante.

“Eu ergu a arma, sim, dessi jeitu.” E juntando ação à palavra, mirou a pistola em Bâtard.

Bâtard, num único pulo lateral, aterrissou na quina da cabana, fora de vista.

“Virgem Maria!”, ele repetiu, em intervalos.

Leclère sorriu orgulhoso.

“Mas por que ele não foge?”

Os ombros do francês subiram no característico gesto que significava todas as coisas da total ignorância à compreensão infinita.

“Então por que você não o mata?”

Novamente os ombros subiram.

“Mon père,” ele disse depois de uma pausa, “a domassãu inda nãu pronta. Eli é um grandi demôniu. Auguma domassãu eu kebru eli, assin i assin, em pedassinhus. Hein? Uma domassãu. Bon!–”

Chegou um dia em que Leclère reuniu seus cachorros e flutuou num bote rio abaixo até a Milha Quarenta, e até o Porco-Espinho, onde pegou uma comissão da Companhia P. C. e foi explorar por quase um ano. Depois disso remou o Koyokuk acima até a deserta Cidade Ártica, e depois voltou vagando de acampamento em acampamento, ao longo do Yukon. E durante os longos meses Bâtard foi bem instruído. Ele aprendeu muitas torturas, e, mais notadamente, a tortura da fome, a tortura da sede, a tortura do fogo, e a pior de todas, a tortura da música.

Como o resto da sua espécie, ele não gostava de música. Ela lhe causava angústia intensa, arruinando-o nervo por nervo e arrebentando cada fibra do seu ser. Fazia-o uivar, longamente e feito um lobo, como quando os lobos desafiam as estrelas em noites gélidas. Ele não conseguia evitar o uivo. Era a sua única fraqueza na disputa com Leclère, e era a sua vergonha. Leclère, por outro lado, amava a música apaixonadamente – tão apaixonadamente quanto amava uma bebida forte. E quando sua alma clamava por expressão, ela era normalmente proferida por uma ou outra dessas duas maneiras, e mais constantemente pelas duas. E quando estava bêbado, o cérebro cheio das cadências de canções desconhecidas e o demônio nele desperto e rampante, sua alma encontrava na tortura de Bâtard a expressão suprema.

“Agora nós vomus tê um poco di músika”, ele dizia. “Eh? Qu’cê axa, Bâtard?”

Era apenas uma gaita arrebentada e velha, ternamente guardada e pacientemente consertada; mas era o melhor que o dinheiro podia comprar, e de suas palhetas prateadas ele invocava estranhos ares errantes que os homens nunca antes haviam ouvido. Então Bâtard, a garganta tolhida, com os dentes bem apertados, se afastava, centímetro por centímetro, até a quina mais distante da cabana. E Leclère, tocando, tocando, um porrete robusto enfiado debaixo do braço, seguia o animal, centímetro a centímetro, passo a passo, até que não houvesse mais para onde fugir.

No início Bâtard se espremia no menor espaço possível, se encolhendo rente ao chão; mas conforme a música chegava mais e mais perto, ele era obrigado a se levantar, as costas enfiadas nos troncos, as patas dianteiras abanando o ar como se para deter as insistentes ondas de som. Ele ainda mantinha os dentes apertados, mas severas contrações musculares atacavam seu corpo, estranhos espasmos e repuxos, até que estivesse todo estremecido e se contorcendo em tormento silencioso. Enquanto perdia o controle, suas mandíbulas se arreganhavam espasmodicamente, e profundas vibrações guturais vinham à tona, num registro de som muito grave para que a orelha humana pudesse captar. E então, narinas distendidas, olhos dilatados, pelos eriçados numa fúria impotente, surgia o longo uivo de lobo. Ele nascia com ímpeto vacilante, aumentando até chegar a uma explosão sonora de cortar o coração, e morria numa angústia tristemente cadenciada – e então o próximo ímpeto, oitava sobre oitava; o coração explodindo; e a infinita aflição e miséria, sumindo, desaparecendo, caindo e morrendo aos poucos.

Era algo digno do inferno. E Leclère, com sabedoria demoníaca, parecia escolher cada nervo e tendão, e com longos gemidos e tremores e soluços forçava-os até a última centelha de penúria. Era assombroso, e pelas próximas vinte e quatro horas Bâtard ficava nervoso e desbaratado, se assustando com sons comuns, tropeçando na própria sombra, mas, ainda assim, vicioso e dominador com os companheiros. Não mostrava sinais de que seu espírito sucumbia. Ao invés disso se tornava ainda mais sinistro e taciturno, aguardando com tal paciência inescrutável que passou a intrigar e pesar sobre Leclère. O cão deitava diante da fogueira, imóvel por horas, encarando Leclère logo à frente e o odiando com seus olhos amargurados.

Muitas vezes o homem sentia que havia atentado contra a própria essência da vida – a inquebrantável essência que derrubava os gaviões do céu como relâmpagos emplumados, que impulsionava os grandes gansos cinzentos de uma zona à outra, que lançava os salmões na desova por duas mil milhas no fervente e inundado Yukon. Nessas ocasiões ele se sentia impelido a expressar sua própria essência inquebrantável; e com bebida forte, música selvagem e Bâtard, ele se entregava a grandes esbórnias, colocando à prova de todas as coisas sua força insignificante, e desafiava tudo que existia, existira e ainda existiria.

“Tem coiza aí”, ele afirmava, quando os caprichos ritmados da sua mente tocavam os acordes secretos da essência de Bâtard e traziam à tona o longo e lúgubre uivo. “Eu vô arrancá cas mias mauns, assin i assin. Ha! Ha! É ingrassadu! É muintu ingrassadu! U padri canta, as mulheras rezãu, us homeins chingãu, us passarinhu fais pio pio, Bâtard, eli fais auu-auu – i é tudo a mema coiza. Ha! Ha!”

Padre Gautier, um padre digno, uma vez o reprovou com instâncias de perdição concreta. Ele nunca o reprovou novamente.

“Podi até sê, mon père”, ele deu a resposta. “I eu achu qui vo passá pelu infernu bein rápidu, comu a madera passa pelu fogu. Eh, mon père?”

Mas todas as coisas ruins chegam ao fim, assim como as boas, e assim foi com Black Leclère. Na água baixa do verão, num bote a remo, ele saiu de McDougall para ir a Sunrise. Deixou McDougall acompanhado de Timothy Brown, e chegou em Sunrise sozinho. Além disso, sabia-se que eles haviam discutido pouco antes de sair; a Lizzie, um ofegante barco a vapor com rodas de pás, de dez toneladas, chegou três dias antes de Leclère mesmo tendo partido vinte e quatro horas depois dele. E quando ele enfim chegou, foi com um buraco de bala atravessado no músculo do ombro, e uma história de emboscada e assassinato.

Uma jazida fora descoberta em Sunrise, e as coisas haviam mudado consideravelmente. Com a infusão de muitas centenas de caçadores de ouro, um tanto de uísque e meia dúzia de apostadores equipados, o missionário viu a página dos seus anos de trabalho com os indígenas apagada. Quando as índias ficaram preocupadas em cozinhar feijões e manter o fogo dos mineradores sem esposas aceso, e os índios em trocar suas peles quentes por garrafas pretas e relógios quebrados, ele deitou em sua cama, disse “me abençoe” várias vezes, e partiu para prestar as contas num paletó de madeira oblongo e tosco. Na sequência os apostadores transferiram suas roletas e mesas de faro¹ para dentro da casa missionária, e o clique das fichas e o tilintar dos copos iam da alvorada à escuridão e à alvorada novamente.

Fato é que Timothy Brown era muito querido entre esses aventureiros do norte. A única coisa que contava contra ele era seu temperamento irritadiço e seu punho irrequieto, – algo menor, que seu coração gentil e mão indulgente mais que redimiam. Por outro lado, não havia nada para redimir Black Leclère. Ele era “negro”, como a lembrança de seus atos dava testemunho, e era odiado tanto quanto o outro era amado. Então os homens de Sunrise colocaram um curativo antisséptico no seu ombro e o arrastaram até diante do Juiz Lynch.

Era uma questão simples. Ele discutiu com Timothy Brown em McDougall. Ele saiu com Timothy Brown de McDougall. Ele chegou sem Timothy Brown em Sunrise. Considerada à luz da sua maldade, a conclusão unânime era a de que matara Timothy Brown. Por outro lado, Leclère reconheceu os fatos mas desafiou a conclusão, e deu sua própria explicação. Vinte milhas depois de Sunrise ele e Timothy Brown estavam remando o bote ao longo da costa rochosa. Dessa costa soaram dois tiros de rifle. Timothy Brown tombou do bote e afundou num vermelho borbulhante, e esse foi o fim de Timothy Brown. Ele, Leclère, mergulhou no fundo do bote com o ombro lancinante. Ficou bem quieto, espiando a costa. Depois de algum tempo dois índios ergueram suas cabeças e vieram até a beira da água, carregando entre eles uma canoa de casca de vidoeiro. Quando a empurraram rio adentro, Leclère abriu fogo. Ele acertou um, que caiu pela borda do mesmo jeito que Timothy Brown. O outro se abaixou no fundo da canoa, e então canoa e bote desceram a correnteza numa batalha à deriva. Depois disso chegaram a uma corrente dividida, e a canoa passou para um lado de uma ilha e o bote para o outro. Esse foi o último vislumbre que teve da canoa, e chegou em Sunrise. Sim, pelo jeito que o índio na canoa pulou, tinha certeza que o acertara. Isso era tudo.

Essa explicação não foi considerada adequada. Eles lhe deram uma prorrogação de dez horas enquanto a Lizzie fumegava pelo rio para investigar. Dez horas depois ela voltou chiando para Sunrise. Não houvera nada para investigar. Nenhuma evidência foi encontrada para validar suas constatações. Eles lhe disseram para fazer seu testamento, pois ele possuía uma reivindicação de mineração em Sunrise que valia cinquenta mil dólares, e eram de uma estirpe que respeitava a lei tanto quanto a aplicava.

Leclère encolheu os ombros. “Só uma coiza,” ele disse; “um piquenu, vomus disê, favô – um favorzin, é issu. Eu do meuz cincuenta míu dólars pra igreja. Eu do meu cãu rãski, Bâtard, pru demôniu. U favorzin? Primeru vocês inforca eli, i dipois vocês mi inforca. Assin é bom, eh?”

Era mesmo bom, eles concordaram, que a Cria do Inferno abrisse caminho para o seu mestre na última travessia, e a corte foi transferida para a margem do rio, onde se erguia um grande pinheiro. Slackwater Charley fez um nó de forca no fim de uma corda de reboque, e o laço foi passado pela cabeça de Leclère e apertado firme ao redor do pescoço. Suas mãos foram atadas atrás das costas, e ele foi assistido até o topo de uma caixa de biscoitos. Então a ponta solta da corda foi passada por sobre um galho saliente, esticada e afixada. Chutar a caixa debaixo dele o deixaria dançando no ar.

“Agora o cachorro,” disse Webster Shaw, antigo engenheiro de mineração. “Você vai ter que amarrar ele, Slackwater.”

Leclère arreganhou os dentes. Slackwater mascou um punhado de tabaco, assoou o nariz e começou a vagarosamente enrolar algumas voltas na sua mão. Ele pausou uma ou outra vez para afastar mosquitos particularmente ofensivos do seu rosto. Todos estavam afastando os mosquitos, exceto Leclère, cuja cabeça estava no meio de uma nuvem visível deles. Até Bâtard, deitado todo esticado no chão, com suas patas dianteiras enxotava as pestes de seus olhos e boca.

Mas enquanto Slackwater aguardava Bâtard erguer sua cabeça, um grito débil chegou pelo ar quieto, e um homem foi visto agitando os braços e correndo pela planície de Sunrise. Era o encarregado do armazém.

“P-podem cancelar, garotos”, ele ofegou, ao se juntar a eles.

“Little Sandy e Bernadotte acabaram de chegar,” ele explicou, recuperando o fôlego. “Pararam lá embaixo e subiram pelo atalho. Tão com o Beaver². Pegaram ele na canoa, preso num curso d’água ao redor duma ilha, com uns buracos de bala nele. O outro índio era Klok-Kutz, o que despachou sua índia e deu no pé.”

“Eh? Qui qui eu dissi? Eh?” Leclère exclamou exultantemente. “É essi cum certesa! Eu sei. Eu falu a verdadi.”

“O que a gente tem que fazer é ensinar a esses malditos Siwashes³ umas boas maneiras,” disse Webster Shaw. “Eles tão ficando gordos e atrevidos, e vamos ter que cortar o barato deles. Junte todos os índios e enforque o Beaver pra dar uma lição objetiva. Esse é o roteiro. Vamos lá pra ver o que ele tem a dizer.”

“Heh, M’sieu!”, chamou Leclère, quando a multidão começava a se espalhar pelo crepúsculo na direção de Sunrise. “Eu gostaria muintu di vê a diverssãu.”

“Te soltamos quando a gente voltar,” Webster Shaw gritou por sobre o ombro. “No meio-tempo medite sobre os seus pecados e os caminhos da providência divina. Isso vai te fazer bem, então fique agradecido.”

Como acontece com homens acostumados a grandes perigos, cujos nervos são saudáveis e treinados para a paciência, assim era com Leclère, que se ajeitou para a longa espera – o que quer dizer que condicionou sua mente a isso. Não havia como ajeitar o corpo, pois a corda esticada o forçava a ficar rigidamente de pé. O mínimo relaxamento dos músculos das pernas pressionavam o laço de fibras ásperas no pescoço, enquanto a posição ereta lhe causava muita dor no ombro ferido. Ele projetou o lábio inferior e soprou o ar para cima pelo rosto para afastar os mosquitos dos olhos. Mas a situação tinha a sua compensação. Ser arrancado da bocarra da morte bem que valia um pouco de sofrimento corporal, só era lamentável que fosse perder o enforcamento do Beaver.

Ele refletiu sobre isso até seus olhos encontrarem Bâtard, cabeça entre as patas dianteiras e esticado no chão, dormindo. E então Leclère parou de refletir. Ele estudou o animal atentamente, tentando perceber se o sono era real ou fingido. As laterais de Bâtard oscilavam regularmente, mas Leclère sentiu que o ar ia e vinha um tanto rápido; também sentiu que havia uma vigilância ou cautela em cada pelo que desmentia um sono isento. Ele teria dado a sua reivindicação em Sunrise para se assegurar que o cachorro não estava acordado, e a certa altura, quando uma de suas juntas estralou, olhou Bâtard rapidamente e com ar de culpa para saber se ele despertara. Ele não despertou então, mas alguns minutos depois se levantou lenta e languidamente, se espreguiçou e olhou cuidadosamente ao redor.

“Sacredam”, disse Leclère, suspirando.

Seguro que ninguém via ou ouvia, Bâtard sentou, entortou o lábio superior quase num sorriso, olhou Leclère e lambeu os beiços.

“Eu tô acabadu,” disse o homem, e riu sardonicamente alto.

Bâtard chegou mais perto, a orelha imprestável balançando, a orelha boa engatilhada pra frente com compreensão demoníaca. Ele virou a cabeça de lado intrigadamente, e avançou com passos afetados, brincalhões. Esfregou seu corpo de leve contra a caixa até que ela sacudiu e sacudiu de novo. Leclère oscilou cuidadosamente para manter o equilíbrio.

“Bâtard,” ele disse calmamente, “cuidadu. Eu ti matu.” Bâtard rosnou ao ouvir a palavra, e sacudiu a caixa com mais força. Então se ergueu, e com as patas dianteiras jogou seu peso contra ela num ponto mais acima. Leclère chutou com um pé mas a corda mordeu seu pescoço e o refreou tão abruptamente que quase o desequilibrou.

“Ei, iá! Chispa! Sai daí! –” ele gritou.

Bâtard recuou por uns sete metros, com uma postura de leviandade diabólica que Leclère não podia confundir. Ele lembrou do cachorro muitas vezes quebrando a crosta de gelo no buraco de água, se erguendo e jogando seu peso contra ela; e, lembrando, entendeu o que ele agora tinha em mente. Bâtard encarou os arredores e parou. Mostrou os dentes brancos arreganhando a boca, ao que Leclère respondeu; e então lançou seu corpo pelo ar, em carga, direto contra a caixa.

Quinze minutos mais tarde, Slackwater Charley e Webster Shaw, ao retornarem, vislumbraram um pêndulo fantasmagórico balançando para frente e para trás na luz tênue. Ao se aproximarem mais rapidamente, divisaram o corpo inerte do homem, e uma coisa viva agarrada a ele, e sacudia e bulia e lhe dava o movimento oscilante.

“Ei, iá! Chispa! Sua Cria do Inferno!”, berrou Webster Shaw.

Mas Bâtard o encarou, e rosnou ameaçadoramente, sem relaxar as mandíbulas.

Slackwater Charley sacou o revólver, mas sua mão estava tremendo, como se tomada por um calafrio, e ele se atrapalhou.

“Aqui, você pega isso”, ele disse, passando a arma adiante.

Webster Shaw deu uma risada curta, mirou entre os olhos reluzentes e apertou o gatilho. O corpo de Bâtard se contorceu com o choque, se debateu no chão espasmodicamente por um momento e ficou repentinamente mole. Mas seus dentes continuavam travados.


Notas do tradutor

NT¹Faro é um jogo de cartas francês do final do século 17. É jogado com apenas um baralho, e a vitória é alcançada quando a carta revelada pelo banqueiro corresponde a outra carta já revelada pelos jogadores. Foi o jogo de aposta mais popular nos Estados Unidos e no Canadá por boa parte do século 18 e início do 19.

NT²Beaver era o termo popular para se referir aos integrantes do povo Dunne-za ou Tsattine, nativo-americanos cujo território ficava ao redor do Rio Peace nas províncias de Alberta e Colúmbia Britânica, no Canadá. Beaver é castor em inglês, e ficaram assim conhecidos por serem “aqueles que moram entre os castores”.

NT³Siwash era um termo comum para se referir aos índios, em especial aos homens nativos. É uma adaptação do francês sauvage no jargão Chinook, muito utilizado no comércio naquela época.


Jack London

Jack London (1876 – 1916), pseudônimo de John Griffith Chaney, foi um escritor, jornalista e ativista social norte-americano. Mais famoso por seus romances Caninos Brancos (White Fang, 1906), O Lobo do Mar (The Sea Wolf, 1904) e Chamado Selvagem (The Call of the Wild, 1903), foi também um pioneiro no gênero conto, vendendo suas histórias para muitos jornais e revistas da época, como The Atlantic Monthly, Harper’s Bazaar, Colliers, The Cosmopolitan, San Francisco Examiner e The Boston Transcript.

Bâtard, publicado em 1902, faz parte da sua produção inicial (1898 a 1903), período em que escreveu fervorosamente contos, ensaios, poemas, piadas, romances, um livro infanto-juvenil e um tratado sociológico, entre outras coisas, de acordo com King Hendricks, um de seus estudiosos. London disse a críticos, a respeito deste conto, que as ações dos homens são a principal causa do comportamento dos seus animais. Este assunto foi explorado mais a fundo no romance Chamado Selvagem.

London era metódico e insistente na venda dos escritos. Sua ficção acabou caindo no gosto popular, em especial as brutais aventuras situadas no gelado norte do Canadá, onde viveu durante a Febre de Ouro do Klondike como prospector. Também fez sucesso com histórias de boxe e de piratas. Publicou 197 contos e 19 romances. Muitas dessas obras já foram traduzidas, embora os volumes de contos estejam, em sua maioria, esgotados. Em domínio público, podem ser encontrados na internet, no idioma original. [Suspeito, mas não tenho certeza, que esta é a primeira tradução de Bâtard para o português.]