A Duplicidade de Hargraves – O. Henry

Originalmente publicado em fevereiro de 1902 na revista Junior Munsey.
Conto em domínio público, disponível em inglês.
Tradução: Santiago Santos, fevereiro de 2016 | 4.769 palavras

Quando o Major aposentado Pendleton Talbot, de Mobile, e sua filha, a senhorita Lydia Talbot, vieram residir em Washington, eles selecionaram uma casa que ficava a cinquenta metros de uma das avenidas mais quietas para se hospedar. Era uma construção de tijolo de estilo antigo, com um pórtico sustentado por dois altos pilares brancos. O jardim era sombreado por jatobás e olmos imponentes, e durante a estação uma catalpa chovia suas flores brancas e rosadas na grama. Fileiras de arbustos altos e aparados delineavam a cerca e as trilhas. Eram o estilo e o aspecto sulista do lugar que agradavam os olhos dos Talbots.

Nessa agradável pensão privada eles alugaram quartos, incluindo um gabinete de estudo para o Major Talbot, que estava adicionando os capítulos finais do seu livro “Anedotas e Reminiscências do Exército e da Prática Jurídica do Alabama”.

O Major Talbot era do antigo, antigo sul. O presente tinha pouco interesse ou excelência aos seus olhos. Sua mente vivia naquele período antes da Guerra Civil*¹, quando os Talbots eram donos de milhares de acres de boa terra algodoeira e de escravos para lavrá-las; quando a mansão da família era palco de hospitalidade principesca, e atraía seus convidados da aristrocracia do sul. Daquele período ele trouxera todo o seu velho orgulho e escrúpulos de honra, uma polidez antiquada e meticulosa, e (era de se imaginar) seu guarda-roupa.

Tais roupas com certeza não haviam sido feitas nos últimos cinquenta anos. O Major era alto, mas sempre que fazia aquela maravilhosa e arcaica genuflexão que chamava de reverência, as quinas da sua sobrecasaca varriam o chão. A vestimenta era uma surpresa até mesmo em Washington, onde há muito haviam deixado de se intimidar pelas sobrevestes e cartolas de abas largas dos congressistas do sul. Um dos pensionistas apelidou a indumentária de “Pai Hubbard*²”, e ela era certamente alta na cintura e cheia no saiote.

Mas o Major, com todas as suas roupas excêntricas, sua imensa área de camisa destacável trançada e esfiapada, e a pequena gravata de laço preto com o nó sempre se desfazendo em um dos lados, era apreciado e querido na seleta pensão da Sra. Vardeman. Alguns dos jovens escrivães muitas vezes “lhe davam corda”, como diziam, incitando-o a falar sobre o assunto mais caro a ele — as tradições e a história da sua querida terra sulista. Durante essas conversas ele citava espontaneamente do seu “Anedotas e Reminiscências”. Mas eram muito cuidadosos de não o deixar perceber suas intenções, pois apesar dos seus sessenta e oito anos ele era capaz de deixar o mais corajoso deles desconfortável com a encarada fixa daqueles penetrantes olhos cinzas.

A senhorita Lydia era uma velha solteirona rechonchuda e pequena de trinta e cinco anos, com o cabelo puxado e bem amarrado que a fazia parecer ainda mais velha. Ela também era antiquada; mas a glória do pré-guerra não radiava dela como acontecia com o Major. Possuía um senso comum parcimonioso; e era ela quem cuidava das finanças da família, e recebia os credores quando havia contas a pagar. O Major considerava contas de hospedagem e lavanderia incômodos desprezíveis. Elas continuavam chegando tão persistentemente e com tanta frequência. Por quê, o Major queria saber, elas não podiam ser acumuladas e pagas em única prestação num momento conveniente — digamos, quando o “Anedotas e Reminiscências” tivesse sido publicado e pago? A senhorita Lydia prosseguia calmamente com sua costura e dizia, “Nós pagaremos conforme gastamos enquanto o dinheiro durar, e depois talvez eles tenham que vender a crédito.”

A maioria dos pensionistas da Sra. Vardeman ficava fora durante o dia, sendo quase todos escrivães e homens de negócio; mas havia um deles que ficava pela casa bastante tempo entre a manhã e a noite. Este era um jovem chamado Henry Hopkins Hargraves — todos na casa o chamavam pelo nome completo — que estava contratado por um dos populares teatros de vaudeville*³. O vaudeville alcançara uma posição tão respeitável nos últimos anos, e o Sr. Hargraves era uma pessoa tão modesta e bem educada, que a Sra. Vardeman não havia encontrado objeção para incluí-lo em sua lista de pensionistas.

No teatro, Hargraves era conhecido como um comediante de dialetos completo, possuindo um vasto repertório de alemão, irlandês e sueco, e era especialista nas gírias dos negros. Mas o Sr. Hargraves era ambicioso, e frequentemente falava de seu grande desejo de prosperar na comédia legítima.

O jovem parecia ter grande afeição pelo Major Talbot. Sempre que este senhor começava suas reminiscências do sul, ou repetia alguma das anedotas mais animadas, Hargraves estava por perto, o mais atento dentre seus ouvintes.

Por algum tempo o Major ficou inclinado a desencorajar as abordagens do “atorzinho de teatro”, como ele o chamava privadamente; mas logo os modos agradáveis e a apreciação indúbita das histórias do velho senhor o conquistaram por completo.

Não demorou muito para que os dois fossem como velhos companheiros. O Major separava as tardes para ler um pouco do manuscrito do seu livro para ele. Durante as anedotas Hargraves nunca deixava de rir exatamente no ponto certo. O Major se sentiu encorajado a declarar um dia à senhorita Lydia que o jovem Hargraves possuía uma percepção notável e um respeito gratificante pelo velho regime. E quando chegava a hora de falar daqueles velhos dias — se o Major Talbot gostava de falar, o Sr. Hargraves ficava extasiado de ouvir.

Como quase todas as velhas pessoas que falam do passado, o Major adorava se deter em detalhes. Ao descrever os esplêndidos, quase régios, dias dos velhos plantadores, ele hesitava até que tivesse lembrado o nome do negro que segurava o seu cavalo, ou a data exata de certos pequenos acontecimentos, ou o número de fardos de algodão coletados em tal ano; mas Hargraves nunca ficava impaciente ou perdia o interesse. Pelo contrário, ele fazia perguntas numa variedade de assuntos conectados com a vida daquele tempo, e nunca falhava em extrair respostas diligentes.

As caças às raposas, as ceias de gambá{*4}, os arrasta-pés e jubileus no alojamento dos negros, os banquetes no salão da sede da fazenda, quando convites viajavam por oitenta quilômetros; as ocasionais contendas com proprietários vizinhos; o duelo do Major com Rathbone Culbertson a respeito de Kitty Chalmers, que depois se casou com um Thwaite da Carolina do Sul; e as corridas privadas de iate por quantias fabulosas na Baía Mobile; as crenças excêntricas, hábitos incautos e virtudes leais dos antigos escravos — todos esses eram assuntos que mantiam tanto o Major quanto Hargraves absorvidos por horas a fio.

Algumas vezes, à noite, quando o jovem estava subindo a escadaria para o quarto depois que seu turno no teatro acabara, o Major aparecia na porta do seu gabinete e se curvava num aceno para ele. Entrando, Hargraves encontrava uma pequena mesa posta com um decantador, uma tigela com açúcar, frutas e um punhado de hortelã verde e fresca.

“Me ocorreu,” o Major começava – ele era sempre cerimonioso — “que talvez você tenha achado seus deveres no — no seu local de trabalho — suficientemente árduos para lhe permitir, Sr. Hargraves, apreciar o que o poeta poderia muito bem ter em mente quando escreveu sobre o ‘doce restaurador da cansada natureza{*5},’ — um dos nossos juleps{*6} sulistas.”

Era um fascínio para Hargraves observá-lo preparar aquilo. Ele exibia maestria artística quando começava, e nunca variava o processo. Com que delicadeza macerava o hortelã; com que minúcia requintada estimava os ingredientes; com que cuidado exagerado tampava o composto com a fruta escarlate brilhando contra a borda verde escura! E então a hospitalidade e graça com que o servia, depois que os talos de aveia selecionados estivessem mergulhados nas suas profundezas tilintantes!

Depois de cerca de quatro meses em Washington, a senhorita Lydia descobriu uma manhã que eles estavam quase sem dinheiro. O “Anedotas e Reminiscências” fora completado, mas os editores não haviam se atirado nas jóias reunidas do senso e da sabedoria do Alabama. O aluguel de uma pequena casa que eles ainda possuíam em Mobile estava dois meses atrasado. O dinheiro para a pensão do mês acabaria em três dias. A senhorita Lydia chamou seu pai para uma consulta.

“Sem dinheiro?” ele disse, com um olhar surpreso. “É muito irritante ser atormentado tão frequentemente por essas quantias triviais. Realmente, eu –”

O Major procurou em seus bolsos. Ele achou apenas uma nota de dois dólares, que devolveu ao bolso do colete.

“Preciso cuidar disso com urgência, Lydia,” ele disse. “Por gentileza pegue meu guarda-chuva e eu descerei à cidade imediatamente. O congressista do nosso distrito, o General Fulghum, me assegurou alguns dias atrás que usaria sua influência para fazer com que meu livro fosse publicado numa data próxima. Eu irei ao seu hotel agora e verei que medida foi tomada.”

Com um pequeno e triste sorriso a senhorita Lydia observou-o abotoar seu “Pai Hubbard” e partir, parando na porta, como ele sempre fazia, para uma profunda reverência.

No começo da noite ele retornou. Pelo jeito o congressista Fulghum havia encontrado o editor que estava com o manuscrito do Major para leitura. Essa pessoa dissera que se as anedotas, etc., fossem cuidadosamente cortadas pela metade, para assim eliminar o preconceito regional e de classe com que o livro estava infestado do começo ao fim, ele poderia considerar sua publicação.

O Major estava dominado por um acesso colérico, mas recobrou a equanimidade, de acordo com seu código de conduta, assim que se viu na presença da senhorita Lydia.

“Precisamos de dinheiro,” disse a senhorita Lydia, com uma pequena ruga acima do nariz. “Me dê os dois dólares e eu enviarei um telegrama ao tio Ralph para conseguir um pouco hoje à noite.”

O Major retirou um pequeno envelope do bolso superior do seu colete e o jogou na mesa.

“Talvez tenha sido imprudente,” ele disse, moderado, “mas a quantia era tão somente nominal que comprei ingressos para o teatro hoje à noite. É um novo drama de guerra, Lydia. Pensei que você ficaria satisfeita de testemunhar essa primeira apresentação em Washington. Me disseram que o Sul tem um ótimo tratamento na peça. Confesso que eu mesmo gostaria de ver essa performance.”

A senhorita Lydia jogou as mãos para cima em silêncio desesperado.

Ainda assim, já que os ingressos estavam comprados poderiam muito bem ser usados. Então, naquela noite, ao sentarem no teatro ouvindo a animada abertura, até a senhorita Lydia se permitiu relegar seus problemas, por ora, a segundo plano. O Major, em trajes impecáveis, com seu casaco extraordinário evidente apenas onde era rigorosamente abotoado, e seu cabelo branco enrolado suavemente, parecia muito fino e distinto. A cortina subiu no primeiro ato de “Uma Flor de Magnólia,” revelando o cenário de uma típica plantação sulista. O Major Talbot demonstrou algum interesse.

“Ah, veja!” exclamou a senhorita Lydia, cutucando o braço dele e apontando o seu programa.

O Major colocou os óculos e leu a linha no elenco de personagens que o dedo dela indicava.

Cel. Webster Calhoun…H. Hopkins Hargraves.

“É o nosso Sr. Hargraves,” disse a senhorita Lydia. “Deve ser a sua primeira apresentação no que ele chama de ‘legítimo.’ Estou tão feliz por ele.”

Foi somente no segundo ato que o Cel. Webster Calhoun apareceu no palco. Quando ele entrou o Major Talbot deu uma fungada audível, o encarou e pareceu congelar. A senhorita Lydia entoou um guincho curto e ambíguo e amassou o programa na mão. Pois o Coronel Calhoun fora produzido para se parecer tanto com o Major Talbot quanto um pêssego se parece com outro. O cabelo longo, branco e fino, encaracolado nas pontas, o nariz aristocrático em formato de bico, a amassada, larga e esfiapada camisa destacável, a gravata de laço, com o nó praticamente sob a orelha, estavam quase exatamente duplicados. E então, para completar a imitação, ele usava uma cópia do supostamente inigualável casaco do Major. Colarinho alto, folgado, cintura altíssima, saiote longo, sobrando trinta centímetros a mais na frente que atrás, a vestimenta não poderia ter sido inspirada em nenhum outro modelo. Daquele momento em diante, o Major e a senhorita Lydia ficaram enfeitiçados nas cadeiras, e viram a representação falsificada de um orgulhoso Talbot “arrastado,” como o Major se expressaria posteriormente, “pelo lamaçal calunioso de um palco corrupto.”

O Sr. Hargraves usara bem suas oportunidades. Ele captara perfeitamente as pequenas idiossincrasias da fala do Major, o sotaque e a entonação e a afetação pomposa — exagerando todas para os propósitos do palco. Quando ele fazia aquela admirável reverência que o Major ingenuamente imaginava ser o ápice de todas as saudações, a audiência irrompia em uma inesperada salva de aplausos calorosos.

A senhorita Lydia permanecia imóvel, sem coragem de olhar para o pai. Às vezes a mão mais próxima dele era colocada contra a bochecha, como se para esconder o sorriso que, apesar da desaprovação, ela não conseguia suprimir inteiramente.

A culminação da audaciosa imitação de Hargraves aconteceu no terceiro ato. A cena é aquela em que o coronel Calhoun entretém alguns dos fazendeiros vizinhos no seu “covil.”

De pé diante de uma mesa no centro do palco, com seus amigos agrupados ao redor, ele recita aquele monólogo inimitável e interminável, tão famoso em “Uma Flor de Magnólia”, ao mesmo tempo em que habilmente faz juleps para o grupo.

O Major Talbot, quieto mas branco de indignação, ouviu suas melhores histórias recontadas, suas teorias de estimação e hobbies expostas e esmiuçadas, e o sonho do “Anedotas e Reminiscências” apresentado, exagerado e deturpado. Sua narrativa favorita — aquela do duelo com Rathbone Culbertson — não foi omitida, e foi proferida com mais fogo, egotismo e entusiasmo do que o próprio Major colocara nela.

O monólogo foi concluído com uma singular, deliciosa e astuta palestra sobre a arte de preparar um julep, ilustrada pelo ato. Aqui a ciência delicada porém pomposa do Major Talbot foi reproduzida nos mínimos detalhes — de sua elegante manipulação das folhas perfumadas — “a milésima parte de um grão de pressão a mais, senhores, e vocês extrairão o amargor, ao invés do aroma, dessa planta que é uma dádiva dos céus” — até a cuidadosa seleção dos talos de aveia.

No encerramento da cena o público soltou um tumultuoso rugido de apreciação. A representação do tipo era tão exata, tão segura e detalhada, que os protagonistas da peça foram esquecidos. Depois de repetidas convocações, Hargraves veio à frente da cortina e fez uma reverência, seu rosto juvenil cintilante e corado com o reconhecimento do sucesso.

Enfim a senhorita Lydia se virou e olhou o Major. Suas narinas delgadas trabalhavam como as guelras de um peixe. Ele colocou as duas mãos trêmulas nos braços da sua cadeira para levantar.

“Nós iremos, Lydia,” ele disse, sufocado. “Isso é uma profanação — abominável.”

Antes que pudesse se erguer, ela o puxou de volta para o seu assento. “Nós ficaremos aqui,” ela declarou. “Você quer fazer propaganda para a cópia exibindo o casaco original?” Então eles ficaram até o fim.

O sucesso de Hargraves deve tê-lo mantido acordado até tarde naquela noite, pois nem no café da manhã nem no almoço ele apareceu.

Por volta das três da tarde ele bateu na porta do gabinete do Major Talbot. O Major a abriu e Hargraves entrou com as mãos cheias dos jornais matutinos — muito cheio do seu triunfo para perceber algo de incomum na conduta do Major.

“Eu dei o meu melhor para eles ontem à noite, Major,” ele começou, exultantemente. “Tive minha oportunidade e, creio, a aproveitei. Aqui está o que o Post disse:

Sua concepção e representação do velho coronel sulista, com sua grandiloquência absurda, sua indumentária excêntrica, seu singular idioma e fraseado, seu orgulho familiar carcomido pelo tempo e seu coração verdadeiramente gentil, senso de honra fastidioso e amável simplicidade, é a melhor delineação do papel de um personagem nos palcos atualmente. O casaco vestido pelo Coronel Calhoun é em si nada menos que um toque de gênio. O Sr. Hargraves capturou seu público.

“Como soa isso, Major, para uma estreia?”

“Eu tive a honra” — a voz do Major soava ameaçadoramente frígida — “de testemunhar sua muito notável performance, senhor, ontem à noite.”

Hargraves pareceu desconcertado.

“Você estava lá? Eu não sabia que você ia — Eu não sabia que você se importava com teatro. Ah, quero dizer, Major Talbot,” ele exclamou, francamente, “não se sinta ofendido. Eu admito que peguei várias nuances suas que me ajudaram maravilhosamente no papel. Mas é um tipo, você sabe — não um indivíduo. A forma que o público reagiu mostra isso. Metade dos patronos daquele teatro são sulistas. Eles reconheceram isso.”

“Sr. Hargraves,” disse o Major, que continuara de pé, “você me impingiu um insulto imperdoável. Você parodiou a minha pessoa, traiu minha confiança grosseiramente, e abusou da minha hospitalidade. Se eu imaginasse que você possuísse a menor concepção do que é o manual de conduta de um cavalheiro, ou qualquer coisa que se assemelhe a isso, eu o chamaria lá fora, senhor, mesmo velho como sou. Eu lhe pedirei que saia do quarto, senhor.”

O ator ficou ligeiramente aturdido, e pareceu ter dificuldade de entender o sentido pleno das palavras do velho homem.

“Eu lamento sinceramente que você tenha se ofendido,” ele disse, pesaroso. “Aqui no norte nós não enxergamos as coisas como vocês. Eu conheço homens que comprariam metade da casa de espetáculos para ter suas personalidades encenadas no palco a fim de que o público as reconhecesse.”

“Eles não são do Alabama, senhor,” disse o Major, altivo.

“Talvez não. Eu tenho uma boa ótima memória, Major; deixe-me citar algumas linhas do seu livro. Em resposta a um brinde em um banquete oferecido em — Milledgeville, creio — você pronunciou, e pretende publicar, essas palavras:

O homem nortenho não possui, em última instância, emoção ou cordialidade exceto quando esses sentimentos podem ser desviados para seu próprio lucro pessoal. Ele sofrerá sem ressentimento qualquer ofensa feita à sua própria honra ou à de seus familiares que não carregue consigo a consequência da perda pecuniária. Em sua caridade, ele dá com uma mão liberal; mas o ato deve ser anunciado com a trombeta e gravado em bronze.

“Você acha que esse retrato é mais justo do que aquele que você viu do Coronel Calhoun ontem à noite?”

“A descrição,” disse o Major, franzindo as sobrancelhas, “é — não é infundada. Algum exag — latitude deve ser permitida no discurso público.”

“E na atuação nos palcos,” replicou Hargraves.

“Este não é o ponto,” persistiu o Major, inflexível. “Aquilo foi uma caricatura pessoal. Eu positivamente me recuso a deixar isso passar, senhor.”

“Major Talbot,” disse Hargraves, com um sorriso vitorioso, “eu gostaria que você me compreendesse. Quero que você saiba que eu nunca sonhei em lhe insultar. Na minha profissão, toda a vida pertence a mim. Eu pego o que quero, e o que posso, e devolvo diante da ribalta. Agora, se me permite, vamos esquecer isso. Eu vim vê-lo a respeito de outra coisa. Temos sido muito bons amigos por alguns meses, e vou tomar o risco de ofendê-lo novamente. Sei que você está sem dinheiro — não se preocupe com a forma como descobri; uma pensão não é lugar para guardar tais assuntos em segredo — e quero que me deixe ajudá-lo a sair desse aperto. Eu mesmo já estive nessa posição várias vezes. Tenho ganhado um salário razoável toda a temporada, e guardei algum dinheiro. Posso lhe dispensar duzentos — ou até mais — até você –”

“Pare!” ordenou o Major, com seu braço estendido. “Parece que meu livro não mentiu, no fim das contas. Você acha que seu bálsamo de dinheiro irá curar as dores da honra. Sob circunstância alguma eu aceitaria um empréstimo de um mero conhecido; e quanto a você, senhor, eu morreria de fome antes de considerar a sua oferta insultante de um ajuste financeiro cujas circunstâncias discutimos. Peço licença para repetir minha solicitação com relação a você deixar o apartamento.”

Hargraves saiu sem dizer outra palavra. Ele também saiu da casa no mesmo dia, se mudando, como a Sra. Vardeman explicou durante o jantar, para mais perto da vizinhança do teatro do centro, onde “Uma Flor de Magnólia” estava programada para toda a semana.

Crítica era a situação do Major Talbot e da senhorita Lydia. Não havia em Washington ninguém cujos escrúpulos do Major permitiam solicitar um empréstimo. A senhorita Lydia escreveu uma carta ao tio Ralph, mas era duvidoso que os negócios constritos do parente o permitissem fornecer ajuda. O Major foi forçado a se desculpar com a Sra. Vardeman a respeito do pagamento atrasado da pensão, se referindo a “aluguéis inadimplentes” e “remessas atrasadas” num esforço deveras confuso.

A salvação veio de uma fonte completamente inesperada.

No fim de uma tarde a empregada apareceu e anunciou um velho homem de cor que queria ver o Major Talbot. O Major pediu que ele fosse enviado ao seu gabinete. Logo um negro apareceu na porta, com seu chapéu na mão, fazendo uma reverência e arrastando um pé desajeitado. Ele estava decentemente vestido num terno preto folgado. Seus sapatos grandes e grosseiros brilhavam com um lustre metálico que sugeria polidor de fogão. Sua penugem crespa era cinza — quase branca. Depois da meia idade, é difícil estimar a idade de um negro. Este poderia ter visto tantos anos quanto o Major Talbot.

“Suponho que ocê não me conheça, sinhô Pendleton,” foram suas primeiras palavras.

O Major levantou e se aproximou, reconhecendo a antiga e familiar denominação. Era um dos negros da velha plantação, sem dúvida; mas eles haviam se espalhado por todos os cantos, e ele não conseguia lembrar da voz ou do rosto.

“Eu creio que não,” ele disse, amigavelmente — “a não ser que você auxilie minha memória.”

“Ocê não alembra do Mose da Cindy, sinhô Pendleton, que ‘migrou’ assim que cabô a guerra?”

“Espere um momento,” disse o Major, esfregando a testa com as pontas dos dedos. Ele adorava relembrar todas as coisas conectadas com aqueles dias estimados. “O Mose da Cindy,” ele refletiu. “Você trabalhava com os cavalos — domando os potros. Sim, eu lembro agora. Depois da rendição, você assumiu o nome de — não me ajude — Mitchell, e foi para o oeste — para Nebraska.”

“Sim sinhô, sim sinhô,” — a face do velho se esticou num sorriso deliciado — “é ele, é isso. Newbraska. Sou eu — Mose Mitchell. Velho tio Mose Mitchell, sô chamado agora. O velho sinhô, seu pai, me deu um par daquelas mulas quando me fui pra me ajudá a começá. Ocê alembra daqueles potros, sinhô Pendleton?”

“Não consigo me lembrar dos potros,” disse o Major. “Você sabe que eu me casei no primeiro ano da guerra e morava na casa do velho Follinsbee. Mas se acomode, se acomode, tio Mose. Estou feliz em vê-lo. Espero que você tenha prosperado.”

Tio Mose pegou uma cadeira e pousou o chapéu cuidadosamente no chão ao seu lado.

“Sim sinhô; nos últimos tempos fiquei bem de vida. Quando cheguei no Newbraska, o povo veio me rodeá pra vê as mulas. Eles nunca tinham visto mulas assim no Newbraska. Vendi as mulas por trezentos dólares. Sim sinhô — trezentos.

“Então eu abri uma oficina de ferrêro, sinhô, e fiz um dinheiro e comprei umas terras. Eu e minha velha cabamos criando sete crianças, e todas indo bem a não ser por dois que morreram. Um ano atrás a ferrovia chegô e deu um preço na minha terra, e então, sinhô Pendleton, tio Mose agora vale onze mil dólares em dinheiro, propriedades e terra.”

“Fico contente de ouvir isso,” disse o Major, empolgado. “Muito contente.”

“E aquele pequeno bebê do sinhô, sinhô Pendleton — o que ocê colocou o nome de senhorita Liddy — aposto que aquela miudinha cresceu tanto que agora ninguém mais reconhece ela.”

O Major se aproximou da porta e chamou: “Lydia, querida, pode vir aqui?”

A senhorita Lydia, parecendo bastante crescida e um tanto preocupada, saiu do quarto dela.

“Diacho, agora! Não disse? Eu soubia que aquele bebê ia tê crescido e ganhado massa. Ocê não alembra do tio Mose, menina?”

“Este é o Mose da tia Cindy, Lydia,” explicou o Major. “Ele deixou Sunnymead e foi para o oeste quando você tinha dois anos.”

“Bem,” disse a senhorita Lydia, “eu dificilmente conseguiria lembrar de você, tio Mose, naquela idade. E, como você diz, eu ‘cresci e ganhei massa’, e fui abençoada há muito tempo. Mas estou feliz de vê-lo, mesmo que eu não possa lembrar de você.”

E ela estava. E o Major também estava. Algo vivo e tangível viera para conectá-los ao passado feliz. Os três sentaram e conversaram sobre os tempos antigos, o Major e tio Mose corrigindo ou auxiliando um ao outro enquanto relembravam os cenários e os dias da plantação.

O Major inquiriu o que o velho fazia tão distante de casa.

“Tio Mose é um eclesiástico,” ele explicou, “da grande convenção Batista nessa cidade. Eu nunca preguei, mas sendo um ancião residente da igreja, e capaz de pagá minhas próprias despesas, eles me mandaram.”

“E como você soube que nós estávamos em Washington?” inquiriu a senhorita Lydia.

“Tem um homi de cor que trabalha no hotel onde eu tô hospedado, e que veio de Mobile. Ele me disse que viu o sinhô Pendleton saindo daqui dessa pensão uma manhã.”

“O motivo por modo de qual eu vim,” continuou tio Mose, enfiando a mão no bolso — “além de rever o pessoal de casa — foi pra pagá o sinhô Pendleton o que eu devo a ele.”

“Me deve?” disse o Major, surpreso.

“Sim sinhô — trezentos dólares.” Ele ofereceu ao Major um maço de notas. “Quando eu fui embora o velho sinhô disse: ‘Leve essas mulas, Mose, e, se acontecer de ocê se tornar capaz, pague por elas’. Sim sinhô — essas foram as palavras dele. A guerra deixô o velho sinhô pobre. O velho sinhô tando morto há muito tempo, a dívida descende pro sinhô Pendleton. Trezentos dólares. Tio Mose é mais que capaz de pagá por elas agora. Quando aquela ferrovia comprô minha terra eu consegui o suficiente pra pagá pelas mulas. Conte o dinheiro, sinhô Pendleton. Foi por esse tanto que eu vendi aquelas mulas. Sim sinhô.”

Havia lágrimas nos olhos do Major Talbot. Ele apertou a mão do tio Mose e pousou a outra no seu ombro.

“Meu caro, fervoroso e velho serviçal,” ele disse numa voz trêmula, “não me importo de lhe dizer que o ‘sinhô Pendleton’ gastou seu último e fatídico dólar uma semana atrás. Nós aceitaremos o dinheiro, tio Mose, já que, de certa forma, é um tipo de pagamento, assim como um símbolo de lealdade e devoção ao antigo regime. Lydia, minha querida, pegue o dinheiro. Você é mais capacitada que eu para decidir a melhor forma de usá-lo.”

“Pegue, querida,” disse tio Mose. “Ele pertence a ocês agora. É o dinheiro de Talbot.”

Depois que o tio Mose saiu, a senhorita Lydia chorou bastante — de alegria; e o Major virou o rosto para um canto e fumou seu cachimbo de barro vulcanicamente.

Nos dias seguintes a paz e a tranquilidade dos Talbots foi restaurada. A face da senhorita Lydia perdeu sua expressão de preocupação. O Major apareceu com uma nova sobrecasaca, e parecia uma estátua de cera personificando a memória de sua era de ouro. Outro editor que leu o manuscrito do “Anedotas e Reminiscências” pensou que, com poucos retoques e uma suavizada nos principais pontos, ele poderia produzir um volume realmente brilhante e vendável. De modo geral, a situação era confortável, e não sem o toque de esperança que é muitas vezes mais doce que bênçãos inesperadas.

Um dia, cerca de uma semana depois do episódio de sorte, uma empregada trouxe uma carta para a senhorita Lydia no seu quarto. O carimbo postal mostrava que era de Nova York. Não conhecendo ninguém lá, a senhorita Lydia, numa leve palpitação de surpresa, sentou em sua mesa e abriu a carta com a tesoura. Isso foi o que ela leu:

Cara Senhorita Talbot:

Achei que você ficaria contente de saber da minha boa sorte. Eu recebi e aceitei uma oferta de duzentos dólares por semana de uma companhia de teatro de Nova York para interpretar o Coronel Calhoun em “Uma Flor de Magnólia.”

Há outra coisa que gostaria que você soubesse. Talvez seja melhor não contar para o Major Talbot. Eu estava ansioso para compensá-lo pela grande ajuda que ele me deu ao estudar para o papel, e pelo mau humor que o afligiu por causa disso. Ele se recusou a me deixar fazer, então eu fiz de qualquer jeito. Os trezentos não me fazem falta.

Sinceramente seu,

H. Hopkins Hargraves,

P.S. O que achou da minha interpretação do tio Mose?

O Major Talbot, passando pelo corredor, viu a porta da senhorita Lydia aberta e parou.

“Alguma carta para nós essa manhã, Lydia, querida?” ele perguntou.

A senhorita Lydia escondeu a carta sob uma dobra do seu vestido.

“A Gazeta de Mobile chegou,” ela disse, prontamente. “Está na sua mesa no gabinete.”


Notas do tradutor

NT*¹ – A Guerra Civil Norte-Americana (também conhecida como Guerra da Secessão) foi travada entre 1861 e 1865, tendo como estopim a abolição da escravidão. O então candidato à presidência Abraham Lincoln, de plataforma pró-abolicionista, foi eleito sobretudo pelo eleitorado do norte do país. Em resposta, antes mesmo que assumisse a Casa Branca em março de 1961, sete estados escravagistas do sul (outros quatro foram incluídos posteriormente), fortes produtores e exportadores de algodão, se uniram para formar os Estados Confederados da América e declarar sua secessão dos Estados Unidos. Acreditavam que países europeus, seus principais importadores, interviriam a seu favor, mas não receberam nenhuma ajuda externa. Foram obrigados a capitular depois de quatro anos de combate.

NT*² – O termo Pai Hubbard é uma brincadeira com o vestido Mãe Hubbard, costumeiro na época. Era longo, largo e solto, com mangas compridas e colarinho alto.

NT*³Vaudeville foi um gênero de entretenimento de variedades predominante nos Estados Unidos e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930. Desenvolvendo-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, “circos de horror”, museus baratos e literatura burlesca, o vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento dos Estados Unidos.

NT*4 – A Ceia de Gambá com Batata (Possum and Tater Supper) era um costume típico da aristocracia sulista na virada do século 19 para o 20, organizada em ocasiões especiais em salões de hotel. Segundo Bryan Edward Stone, no livro The Chosen Folks: Jews on the Frontier of Texas, pág 72, “A ceia de Gambá com Batata era uma espécie de trote para os abastados cidadãos que garantiam seu ingresso na fraternidade profissional e de negócios de Waco, fingindo comer como se fossem pobres camponeses ao invés da elite oriental que haviam passado a espelhar.” Waco é uma cidade do Texas.

NT*5 – “Tired nature’s sweet restorer, balmy Sleep!” é a primeira linha do primeiro poema da obra Night Thoughts, do inglês Edward Young (1683 – 1765).

NT*6 – O mint julep é um drink característico do sul norte-americano. O tradicional é feito com hortelã, uísque, açúcar e água, mas há diversas variantes.


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O. Henry (1862 – 1910), pseudônimo de William Sydney Porter, foi um escritor norte-americano. Autor de centenas de contos, a maior parte deles dotados de um senso de humor cativante e finais cheios de reviravoltas (plot twists), O. Henry era campeão de audiência com o público mas nem sempre com a crítica especializada. Foi comparado com o escritor francês Guy de Maupassant e considerado sua contraparte norte-americana devido aos finais inesperados, embora suas histórias fossem, no geral, mais brincalhonas.

Nascido na Carolina do Norte, onde trabalhou como farmacêutico, O. Henry se mudou para o Texas. Lá foi empregado como projetista no governo e posteriormente como caixa de banco e escriturário no First National Bank, em Austin. Leitor voraz desde menino, na juventude começou a colaborar com jornais e revistas e nunca parou. Após sua saída do banco, passou a viver apenas dos proventos literários, incentivado pela esposa. Foi acusado, anos mais tarde, de fraude e desvio de dinheiro durante seu período no banco. Fugiu para Honduras, onde continuou escrevendo, mas retornou aos Estados Unidos ao saber das condições da esposa, então no leito de morte, afligida por tuberculose. Se entregou às autoridades e cumpriu três anos de pena, sendo liberado antes dos cincos anos previstos devido ao bom comportamento. Mudou-se para Nova Iorque, onde viveu seus últimos oito anos, para ficar mais perto dos editores. Lá escreveu mais de 300 histórias. Um bebedor inveterado, O. Henry viu sua saúde se deteriorar e morreu devido a uma cirrose do fígado, diabetes e problemas do coração. Faleceu aos 47 anos.

Suas histórias, normalmente focadas nos tipos comuns que encontrou durante a vida, como policiais, escrivães, golpistas, garçonetes, ladrões e atores, são ainda hoje lembradas e lidas. Considerado um mestre da forma curta, empresta seu nome ao prestigioso O. Henry Award (Prêmio O. Henry), que premia anualmente contos de mérito excepcional escritos em inglês. Embora tenha publicado muito, poucas de suas histórias foram reunidas em livros durante sua vida, algo que tem sido remediado nas últimas décadas. Em domínio público, suas histórias podem ser encontradas na internet, no idioma original. Poucas delas foram traduzidas para o português, que incluem: três contos por Fernando Pessoa, uma edição recente de O Presente dos Magos pela falecida Cosac Naify, contos sortidos incluídos em livros infanto-juvenis e aventurescos e uma edição da Ediouro intitulada Caminhos do Destino e Outros Contos. [Suspeito, mas não tenho certeza, que esta é a primeira tradução de The Duplicity of Hargraves para o português.]

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Ele Está Vivo ou Está Morto? – Mark Twain

Originalmente publicado em 1893.
Conto em domínio público, disponível em inglês.
Tradução: Santiago Santos, fevereiro de 2016 | 3.363 palavras

Eu passava o mês de março de 1892 em Menton, na Riviera francesa. Neste local afastado se tem todas as vantagens, em privado, que se teria publicamente em Monte Carlo e Nice, alguns quilômetros mais adiante. Me refiro à luz abundante do sol, à brisa tranquila e ao brilhante mar azul, sem as adições desagradáveis do barulho e rebuliço e extravagância e ostentação humana. Menton é quieta, simples, sossegada, despretensiosa; os ricos e os pomposos não a visitam. Como uma regra, quero dizer, os ricos não a visitam. De vez em quando um homem rico aparece, e naquele momento eu conhecia um deles. Parcialmente para disfarçá-lo vou chamá-lo de Smith. Certo dia, no Hotel des Anglais, no segundo café da manhã, ele exclamou:

‘Rápido! Preste atenção no homem saindo pela porta. Repare em cada detalhe.’

‘Por quê?’

‘Você sabe quem ele é?’

‘Sim. Ele passou vários dias aqui antes de você chegar. É um velho, aposentado e muito rico fabricante de seda de Lyons, dizem, e creio que seja sozinho no mundo, pois sempre parece triste e sonhador, e não fala com ninguém. Seu nome é Theophile Magnan.’

Eu supus que Smith então passaria a justificar o grande interesse que havia mostrado no Monsieur Magnan, mas, ao invés disso, mergulhou num devaneio e ficou aparentemente apartado de mim e do resto do mundo por alguns minutos. De vez em quando passava os dedos pelo sedoso cabelo branco, para auxiliar no divagar, e enquanto isso permitia que seu café da manhã esfriasse. Enfim ele disse:

‘Não, já acabou; não posso voltar a isso.’

‘Voltar ao quê?’

‘É uma das pequenas e belas histórias de Hans Andersen. Mas a deixei no passado. Parte dela é assim: uma criança possui um pássaro engaiolado, que ama mas negligencia sem muita consideração. O pássaro entoa sua canção despercebido e ignorado; mas, eventualmente, fome e sede atormentam a criatura, e sua canção se torna mais lamentosa e febril e finalmente cessa– o pássaro morre. A criança descobre e seu coração é esmigalhado pelo remorso: então, com lágrimas amargas e lamentações, chama seus companheiros, e eles enterram o pássaro com elaborada pompa e o mais terno pesar, sem saber, pobrezinhos, que não são apenas crianças que deixam poetas morrerem de fome e depois gastam nos seus funerais e monumentos uma quantia que poderia tê-los mantido vivos e em tranquilidade e conforto. Agora–’

Mas aqui fomos interrompidos. Por volta de dez da noite eu encontrei Smith, e ele me convidou para subir ao seu salão de visitas e ajudá-lo a fumar e beber uísque quente. Era um lugar aconchegante, com suas cadeiras confortáveis, suas luminárias alegres e sua amigável lareira, alimentada com oliveira envelhecida. Para tornar tudo perfeito, havia o barulho abafado do quebrar das ondas lá fora. Depois do segundo uísque e muita conversa solta e agradável, Smith disse:

‘Agora estamos devidamente acomodados– eu para contar uma história curiosa e você para ouvi-la. Ela tem sido um segredo por muitos anos– um segredo entre eu e outros três; mas quebrarei o selo agora. Se sente confortável?’

‘Perfeitamente. Prossiga.’

Aqui segue o que ele me disse:

‘Muito tempo atrás eu era um jovem artista– um artista muito jovem, de fato– e viajava pelo interior da França, rabiscando aqui e rabiscando ali, na época acompanhado por dois estimados jovens franceses que faziam a mesma coisa que eu fazia. Éramos felizes como éramos pobres, ou pobres como éramos felizes– na ordem que você julgar melhor. Claude Frere e Carl Boulanger– estes são os nomes daqueles rapazes; estimadíssimos sujeitos e os espíritos mais enaltecidos que já riram da pobreza, capazes de tirar bom proveito de qualquer situação.

‘Acabamos chegando ao fundo do poço numa vila bretã, e um artista tão pobre quanto nós nos acolheu e literalmente nos salvou da morte– François Millet–’

‘Não! O grande François Millet?’

‘Grande? Ele não era nada maior que nós, na época. Ele não possuía fama, nem mesmo na sua própria vila; e era tão pobre que não tinha nada com o que nos alimentar a não ser nabos, e mesmo os nabos nos faltavam às vezes. Nós quatro nos tornamos amigos muito rápido, amigos fraternos, inseparáveis. Pintávamos juntos com toda a nossa energia, acrescentando e acrescentando ao estoque, mas em raras ocasiões nos livrando de algo dele. Passamos tempos fascinantes juntos; mas, por minha alma!, como éramos miseráveis!

‘Por pouco mais de dois anos isso continuou. Finalmente, um dia, Claude falou:

‘“Companheiros, chegamos ao fim. Vocês entendem isso? Absolutamente ao fim. Todos decidiram– há uma liga formada contra nós. Já estive por toda a vila e é como estou lhes dizendo. Eles se recusam a nos oferecer outro centavo em crédito até que toda e qualquer dívida seja paga.”

‘Isso nos atingiu em cheio. Cada rosto estava branco de consternação. Percebemos que agora nossas circunstâncias eram desesperadoras. Houve um longo silêncio. Finalmente, Millet suspirou e disse:

‘“Nada me ocorre– nada. Sugiram algo, rapazes.”

‘Não houve resposta, a não ser que um silêncio fúnebre possa ser chamado de resposta. Carl levantou e andou nervosamente para cima e para baixo por um tempo, então disse:

‘“É uma vergonha! Olhem essas telas: pilhas e pilhas de quadros tão bons como o de qualquer pintor na Europa– não me importa quem seja. Sim, e muitos estranhos interessados disseram o mesmo– ou quase isso, de qualquer forma.”

‘“Mas não compraram”, Millet disse.

‘“Não importa, eles disseram; e é verdade. Olhe o seu ‘Angelus’ ali! Alguém pode me dizer–”

‘“Pff, Carl– Meu ‘Angelus’! Me ofereceram cinco francos por ele.”

‘“Quando?”

‘“Quem ofereceu?”

‘“Onde está ele?”

‘“Por que você não aceitou?”

‘“Calma– não falem todos ao mesmo tempo. Eu achei que ele daria mais– eu tinha certeza– parecia que sim– então eu pedi oito.”

‘“Bem– e então?”

‘“Ele disse que voltaria a me procurar.”

‘“Macacos me mordam! Por quê, François–”

‘“Ah, eu sei– eu sei! Foi um erro e fui um tolo. Rapazes, minha intenção era a melhor; vocês me entendem, e–”

‘“Bom, é claro que sabemos disso, abençoado seja o seu coração; mas não seja um tolo novamente.”

‘“Eu? Eu gostaria que alguém aparecesse e nos oferecesse um repolho por ele– vocês veriam!”

‘“Um repolho! Não, não mencione isso– eu chego a salivar. Fale de coisas menos tentadoras.”

‘“Companheiros,” disse Carl, “essas pinturas são desprovidas de mérito? Me respondam isso.”

‘“Não!”

‘“Não seriam elas do mais grande e digno mérito? Me respondam isso.”

‘“Sim.”

‘“De tão grande e digno mérito que, se um nome ilustre fosse atribuído a elas, seriam vendidas por preços esplêndidos. Não é verdade?”

‘“Certamente é. Ninguém duvida disso.”

‘“Mas– eu não estou brincando– não é verdade?”

‘“Sim, é claro que é– e nós não estamos brincando. Mas de que adianta? De que adianta? Que importância tem isso?”

‘“Dessa forma, camaradas– atribuíremos um nome ilustre a elas!”

‘A conversa animada parou. Os rostos se viraram inquisitivamente para Carl. Que tipo de pegadinha era aquela? Onde conseguiríamos um nome ilustre? E quem o emprestaria?”

‘Carl sentou e disse:

‘“Bom, eu tenho algo bastante sério para propor. Penso que seja a única maneira de nos livrar da sarjeta, e acredito que seja uma maneira garantida. Baseio essa opinião em certos fatos multitudinários e há muito estabelecidos da história humana. Acredito que meu plano deixará todos nós ricos.”

‘“Ricos! Você perdeu a cabeça!.”

‘“Não, não perdi.”

‘“Sim, você perdeu– perdeu a cabeça. O que você chama de rico?”

‘“Cem mil francos para cada.”

‘“Ele perdeu a cabeça. Eu sabia.”

‘“Sim, ele perdeu. Carl, a privação foi demais para você, e–”

‘“Carl, você deve tomar uma pílula e se deitar agora mesmo.”

‘“Façam um curativo nele antes– enfaixem a cabeça, e então–”

‘“Não, enfaixem os tornozelos dele; o cérebro está escorrendo há semanas– já notei.”

‘“Calem a boca!” disse Millet, com severidade ostensiva, “e deixem o rapaz dizer o que quer. Pois bem– nos diga o seu plano, Carl. O que é?”

‘“Bem, certo, à guisa de preâmbulo peço que notem este fato da história humana: que o mérito de muitos grandes artistas nunca foi reconhecido até depois que estivessem esfomeados e mortos. Isso aconteceu com tanta frequência que me atrevo a fundar uma lei para isso. Esta lei: que o mérito de todo grande artista desconhecido e negligenciado deve e será reconhecido e suas pinturas atingirão altos preços depois de sua morte. Meu plano é este: devemos tirar na sorte– um de nós tem que morrer.”

‘A observação nos atingiu tão calma e inesperadamente que quase esquecemos de pular. Então houve um novo coro selvagem de recomendações– recomendações médicas– para o auxílio do cérebro de Carl; mas ele pacientemente esperou a euforia abrandar e continuou a falar do seu plano:

‘“Sim, um de nós tem que morrer, para salvar os outros– e a si mesmo. Tiraremos na sorte. O escolhido será ilustre, e todos nós seremos ricos. Fiquem quietos, agora– fiquem quietos; não interrompam– Eu digo que sei do que estou falando. Aqui segue a ideia. Pelos próximos três meses aquele escolhido para morrer pintará com toda a sua energia, aumentando seu estoque o máximo que conseguir– não quadros, não! Esqueletos, estudos, partes de estudos, fragmentos de estudos, uma dúzia de pinceladas em cada– sem sentido, é claro, mas seu, com sua assinatura neles; produzirá cinquenta por dia, cada um contendo algum maneirismo ou peculiaridade facilmente identificável como seu– essas são as coisas que vendem, vocês sabem, e são colecionadas por preços fabulosos nos museus do mundo, depois que o homem se vai; teremos uma tonelada deles prontos– uma tonelada! E todo esse tempo o resto de nós estará ocupado sustentando o moribundo e convencendo Paris e os negociantes– preparativos para o evento vindouro, você sabem; e quando tudo estiver afinado e afiado, vamos surpreendê-los com a morte e fazer o notório funeral. Entenderam a ideia?”

‘“N-não; pelo menos, não to–”

‘“Não totalmente? Vocês não veem? O homem não morre de fato; ele muda seu nome e desaparece; enterramos um boneco e choramos por ele, com todo o mundo para ajudar. E eu–”

‘Mas não o deixaram terminar. Todos irromperam em um enérgico viva de aplauso; e todos pularam e festejaram pelo quarto e se penduraram no pescoço um do outro em arroubos de gratidão e alegria. Por horas falamos sobre o grande plano, sem nunca sentir fome; e enfim, quando todos os detalhes haviam sido combinados satisfatoriamente, tiramos na sorte e Millet foi eleito– eleito para morrer, como dissemos. Então raspamos o tacho e reunimos aquelas coisas de que a pessoa não se livra até que as esteja apostando contra a riqueza vindoura– quinquilharias sentimentais e coisas assim– e as penhoramos para obter o suficiente para um desjejum e uma janta de despedida, ainda que frugais, e ainda uns poucos francos para a viagem e uma pilha de nabos e afins para Millet viver por alguns dias.

‘Na manhã seguinte, bem cedo, nós três saímos, logo depois do desjejum– a pé, é claro. Cada um de nós carregava uma dúzia dos pequenos quadros de Millet, com a intenção de vendê-los. Carl partiu para Paris, onde começaria o trabalho de consolidar o nome de Millet até a chegada do grande dia. Claude e eu nos separaríamos e nos dispersaríamos pela França.

‘Bem, vai lhe surpreender saber que coisa tranquila e confortável nós arranjamos. Andei dois dias antes de começar os negócios. Então comecei a pintar uma casa de campo nos arredores de uma grande cidade– porque vi o proprietário parado em um terraço. Ele desceu para olhar– achei que o faria. Trabalhei rápido, na intenção de mantê-lo interessado. Ocasionalmente ele soltava uma exclamação de aprovação, e dali a pouco falava com entusiasmo, e disse que eu era um mestre!

‘Larguei meu pincel, enfiei a mão na bolsa, tirei um Millet e apontei a assinatura no canto. Eu disse, orgulhosamente:

‘“Suponho que você reconhece isso? Bem, ele me ensinou! Não é surpresa que eu entenda do meu ofício!”

‘O homem pareceu culposamente embaraçado, e ficou em silêncio. Eu disse, com pesar:

‘“Você não pode estar insinuando que não conhece a assinatura de François Millet!”

‘É claro que ele não conhecia aquela assinatura; mas se tornou o homem mais agradecido que você já viu por ser liberado daquela posição desconfortável em termos tão tranquilos. Ele disse:

‘“Não! É claro que é de Millet, sem dúvida! Não sei no que eu estava pensando. É claro que agora a reconheço.”

‘Em seguida, ele quis comprar o quadro; mas eu disse que embora não fosse rico eu não era tão pobre. No entanto, no fim, o deixei ficar com ele por oitocentos francos.’

‘Oitocentos!’

‘Sim. Millet o teria vendido por uma costeleta de porco. Sim, eu consegui oitocentos francos por aquela coisinha. Eu gostaria de poder pegá-la de volta por oitenta mil. Mas esse tempo já passou. Fiz uma pintura muito bonita da casa daquele homem e quis oferecê-la para ele por dez francos, mas aquilo não teria cabimento, já que eu era o pupilo de tamanho mestre, então a vendi para ele por cem. Mandei os oitocentos francos direto para Millet daquela cidade e parti novamente no dia seguinte.

‘Mas eu não andei– não. Eu cavalguei. Tenho cavalgado desde então. Vendi um quadro todo dia, e nunca tentei vender dois. Eu sempre dizia ao meu cliente:

‘“Sou um tolo por vender qualquer quadro de François Millet, pois aquele homem não vai viver três meses, e quando ele morrer seus quadros não poderão ser adquiridos de jeito algum.”

‘Tratei de divulgar o máximo possível este pequeno fato, e preparar o mundo para o evento.

‘Fui o responsável pelo plano de vender os quadros– foi minha ideia. Sugeri naquela última noite quando estávamos delineando nossa campanha, e nós três concordamos em tentar com algum afinco antes de adotar outra estratégia. Deu certo para todos. Eu andei apenas dois dias, Claude andou dois– ambos com receio de tornar Millet celebrado muito perto de casa– mas Carl andou apenas meio dia, o patife astuto e inescrupuloso, e depois disso ele viajou como um duque.

‘De vez em quando nos encontrávamos com um editor do interior e começávamos a circular uma nota pela imprensa; não uma nota anunciando que um novo pintor havia sido descoberto, mas uma nota que deixava claro que todos conheciam François Millet; não uma nota elogiando-o de qualquer maneira, mas meramente uma palavra a respeito da presente condição do “mestre”– às vezes esperançosa, às vezes abatida, mas sempre marcada pelos medos do pior. Nós sempre marcávamos esses parágrafos e enviávamos os jornais para todas as pessoas que haviam comprado quadros de nós.

‘Carl logo estava em Paris, e ele ajeitou as coisas de maneira exemplar. Fez amizade com os correspondentes e fez com que a condição de Millet fosse noticiada na Inglaterra e em todo o continente, e na América, e em todo lugar.

‘Ao cabo de seis semanas, nós três nos encontramos em Paris e decidimos fazer uma pausa, e paramos de requisitar de Millet quadros adicionais. O rebuliço era tão grande, e tudo tão propício, que vimos que seria um erro não agir agora, naquele momento, sem esperar mais. Então escrevemos para Millet ir se deitar e começar a definhar bem rápido, pois gostaríamos que ele morresse em dez dias se pudesse se aprontar.

‘Em seguida fizemos as contas e descobrimos que entre nós havíamos vendido oitenta e cinco pequenos quadros e estudos, e tínhamos sessenta e nove mil francos para mostrar por isso. Carl havia feito a última venda, a mais brilhante de todas. Ele vendeu o “Angelus” por vinte e dois mil francos. Como o glorificamos!– não prevendo que eventualmente chegaria o dia em que a França lutaria para consegui-lo e um estranho o capturaria por quinhentos e cinquenta mil, à vista.

‘Tivemos um jantar com champanhe de encerramento naquela noite, e no dia seguinte Claude e eu fizemos as malas e partimos para cuidar de Millet em seus últimos dias, para manter intrometidos fora da casa e mandar boletins diários para Carl, em Paris, com fim de publicação nos jornais de vários continentes, alimentando um mundo à espera de notícias. O triste fim chegou finalmente, e Carl estava lá a tempo de ajudar nos últimos ritos fúnebres.

‘Você lembra daquele grande funeral, e a comoção que causou por todo o globo, e como os ilustres dos dois mundos compareceram e prestaram seus pesares. Nós quatro– ainda inseparáveis– carregamos o caixão, e não permitimos que ninguém ajudasse. E estávamos certos quanto a isso, porque não havia nada dentro dele a não ser uma estátua de cera, e qualquer outro portador de caixão teria estranhado o peso. Sim, nós quatro, que havíamos afavelmente compartilhado a privação juntos nos duros tempos agora para sempre acabados, carregávamos o cai–”

‘Que quatro?’

‘Nós quatro– pois Millet ajudou a carregar seu próprio caixão. Disfarçado, claro. Disfarçado como um parente– um parente distante.’

‘Surpreendente!’

‘Mas ainda assim verdadeiro. Bem, você lembra como as pinturas valorizaram. Dinheiro? Não sabíamos o que fazer com ele. Há um homem em Paris hoje que possui setenta quadros de Millet. Ele nos pagou dois milhões de francos por eles. E quanto à enxurrada de esqueletos e estudos que Millet produziu durante as seis semanas que estivemos na estrada, bem, te surpreenderia saber a cifra pela qual os vendemos hoje em dia– quer dizer, quando consentimos em nos separar de um deles!’

‘É uma história maravilhosa, perfeitamente maravilhosa!’

‘Sim– no fim das contas é isso.’

‘O que aconteceu com Millet?’

‘Você consegue guardar um segredo?’

‘Consigo.’

‘Você lembra do homem para o qual chamei sua atenção na sala de jantar hoje? Aquele era François Millet.’

‘Meu–’

‘Deus! Sim. Ao menos uma vez eles não deixaram um gênio morrer de fome e depois colocaram em outros bolsos as recompensas que ele deveria ter para si. A este passarinho não foi permitido esgotar seu coração em cantorias sem ser ouvido e depois receber como pagamento a pompa fria de um grande funeral. Nós garantimos isso.’


Nota do tradutor

Jean-François Millet (1814 – 1875) existiu de fato e foi um importante pintor do movimento realista, cuja obra é marcada sobretudo pelas pinturas de camponeses no interior francês. O Angelus, sua obra mais conhecida, foi disputada entre colecionadores dos Estados Unidos e da França anos após sua morte, como aludido no conto. Esta disputa, famosa pelo contraste entre o alto valor que atingiu o quadro e as condições miseráveis da família de Millet, foi a principal motivação por trás da criação da lei Droit de Suite, que exige que a cada revenda parte dos direitos autorais da obra seja repassada ao autor ou seus herdeiros. Até hoje é válida em toda a Europa. Nos Estados Unidos, atualmente, a lei análoga a essa foi revogada, e o autor recebe os direitos apenas na primeira venda.

Jean-François_Millet_Angelus
Angelus – François Millet

A Droit de Suite foi apresentada formalmente em torno de 1893, data de publicação do conto. Twain construiu essa história (ele morava na Europa na época), sem dúvida, para sensibilizar os leitores acerca da sua importância, que tencionava resguardar os “artistas esfomeados”. Twain, um crítico social contumaz, não raro usava suas peças ficcionais como parábolas de suas crenças, ou metáforas claras de sua visão de mundo. O Angelus está atualmente exposto no Museu de Orsay, em Paris.


MarkTwain

Mark Twain (1835 – 1910), pseudônimo de Samuel Longhorne Clemens, foi um escritor, jornalista, orador e crítico literário norte-americano. É lembrado sobretudo por seus romances As Aventuras de Tom Sawyer (1876) e Aventuras de Huckleberry Finn (1885), este último considerado por muitos estudiosos como o primeiro “grande romance americano”. Twain escreveu, além de 11 romances, vários relatos de viagem, contos, poemas e ensaios. Ganhou uma quantia substancial de dinheiro com a literatura ainda em vida. Investimentos furados o levaram a declarar falência em 1894; alguns anos mais tarde se recuperou financeiramente.

Ele Está Vivo ou Está Morto? foi publicado em 1893, e em 1898 foi adaptado pelo próprio Twain como um roteiro para teatro, com o título encurtado de Is He Dead? (Ele Está Morto?). No entanto, a publicação da dramaturgia só ocorreu em 2003 (os manuscritos de Twain são mantidos na Universidade da Califórnia em Berkeley) e sua primeira encenação foi aos palcos em 2007. No conto é possível notar várias de suas marcas estilísticas: o humor afiado, o ouvido para o diálogo, a narrativa fluida e, sobretudo, as críticas que imputava em vários de seus contos através dos personagens. Neste caso, mais notadamente, o verdadeiro valor da arte e o reconhecimento dos artistas.

Twain viajou por quase todo o mundo, aceitando convites para fazer discursos e palestras. Seu bom-humor e perspicácia em tais eventos o tornaram célebre e uma espécie de precursor da comédia stand-up. É considerado um dos mais importantes escritores e pensadores do seu país. Já foi chamado por William Faulkner de “pai” da literatura norte-americana e Ernest Hemingway disse que “toda a literatura norte-americana descende de Huckleberry Finn”. É creditado como o primeiro a abraçar a fala cotidiana dos conterrâneos, cheia de gírias e maneirismos, e imortalizá-la nas letras, colorindo sua prosa e regionalizando-a. Em domínio público, suas obras podem ser encontradas na internet, no idioma original. As mais conhecidas, incluindo contos e ensaios, já foram traduzidas no Brasil. [Suspeito, mas não tenho certeza, que esta é a primeira tradução de Is He Living or Is He Dead? para o português.]