Ele Está Vivo ou Está Morto? – Mark Twain

Originalmente publicado em 1893.
Conto em domínio público, disponível em inglês.
Tradução: Santiago Santos, fevereiro de 2016 | 3.363 palavras

Eu passava o mês de março de 1892 em Menton, na Riviera francesa. Neste local afastado se tem todas as vantagens, em privado, que se teria publicamente em Monte Carlo e Nice, alguns quilômetros mais adiante. Me refiro à luz abundante do sol, à brisa tranquila e ao brilhante mar azul, sem as adições desagradáveis do barulho e rebuliço e extravagância e ostentação humana. Menton é quieta, simples, sossegada, despretensiosa; os ricos e os pomposos não a visitam. Como uma regra, quero dizer, os ricos não a visitam. De vez em quando um homem rico aparece, e naquele momento eu conhecia um deles. Parcialmente para disfarçá-lo vou chamá-lo de Smith. Certo dia, no Hotel des Anglais, no segundo café da manhã, ele exclamou:

‘Rápido! Preste atenção no homem saindo pela porta. Repare em cada detalhe.’

‘Por quê?’

‘Você sabe quem ele é?’

‘Sim. Ele passou vários dias aqui antes de você chegar. É um velho, aposentado e muito rico fabricante de seda de Lyons, dizem, e creio que seja sozinho no mundo, pois sempre parece triste e sonhador, e não fala com ninguém. Seu nome é Theophile Magnan.’

Eu supus que Smith então passaria a justificar o grande interesse que havia mostrado no Monsieur Magnan, mas, ao invés disso, mergulhou num devaneio e ficou aparentemente apartado de mim e do resto do mundo por alguns minutos. De vez em quando passava os dedos pelo sedoso cabelo branco, para auxiliar no divagar, e enquanto isso permitia que seu café da manhã esfriasse. Enfim ele disse:

‘Não, já acabou; não posso voltar a isso.’

‘Voltar ao quê?’

‘É uma das pequenas e belas histórias de Hans Andersen. Mas a deixei no passado. Parte dela é assim: uma criança possui um pássaro engaiolado, que ama mas negligencia sem muita consideração. O pássaro entoa sua canção despercebido e ignorado; mas, eventualmente, fome e sede atormentam a criatura, e sua canção se torna mais lamentosa e febril e finalmente cessa– o pássaro morre. A criança descobre e seu coração é esmigalhado pelo remorso: então, com lágrimas amargas e lamentações, chama seus companheiros, e eles enterram o pássaro com elaborada pompa e o mais terno pesar, sem saber, pobrezinhos, que não são apenas crianças que deixam poetas morrerem de fome e depois gastam nos seus funerais e monumentos uma quantia que poderia tê-los mantido vivos e em tranquilidade e conforto. Agora–’

Mas aqui fomos interrompidos. Por volta de dez da noite eu encontrei Smith, e ele me convidou para subir ao seu salão de visitas e ajudá-lo a fumar e beber uísque quente. Era um lugar aconchegante, com suas cadeiras confortáveis, suas luminárias alegres e sua amigável lareira, alimentada com oliveira envelhecida. Para tornar tudo perfeito, havia o barulho abafado do quebrar das ondas lá fora. Depois do segundo uísque e muita conversa solta e agradável, Smith disse:

‘Agora estamos devidamente acomodados– eu para contar uma história curiosa e você para ouvi-la. Ela tem sido um segredo por muitos anos– um segredo entre eu e outros três; mas quebrarei o selo agora. Se sente confortável?’

‘Perfeitamente. Prossiga.’

Aqui segue o que ele me disse:

‘Muito tempo atrás eu era um jovem artista– um artista muito jovem, de fato– e viajava pelo interior da França, rabiscando aqui e rabiscando ali, na época acompanhado por dois estimados jovens franceses que faziam a mesma coisa que eu fazia. Éramos felizes como éramos pobres, ou pobres como éramos felizes– na ordem que você julgar melhor. Claude Frere e Carl Boulanger– estes são os nomes daqueles rapazes; estimadíssimos sujeitos e os espíritos mais enaltecidos que já riram da pobreza, capazes de tirar bom proveito de qualquer situação.

‘Acabamos chegando ao fundo do poço numa vila bretã, e um artista tão pobre quanto nós nos acolheu e literalmente nos salvou da morte– François Millet–’

‘Não! O grande François Millet?’

‘Grande? Ele não era nada maior que nós, na época. Ele não possuía fama, nem mesmo na sua própria vila; e era tão pobre que não tinha nada com o que nos alimentar a não ser nabos, e mesmo os nabos nos faltavam às vezes. Nós quatro nos tornamos amigos muito rápido, amigos fraternos, inseparáveis. Pintávamos juntos com toda a nossa energia, acrescentando e acrescentando ao estoque, mas em raras ocasiões nos livrando de algo dele. Passamos tempos fascinantes juntos; mas, por minha alma!, como éramos miseráveis!

‘Por pouco mais de dois anos isso continuou. Finalmente, um dia, Claude falou:

‘“Companheiros, chegamos ao fim. Vocês entendem isso? Absolutamente ao fim. Todos decidiram– há uma liga formada contra nós. Já estive por toda a vila e é como estou lhes dizendo. Eles se recusam a nos oferecer outro centavo em crédito até que toda e qualquer dívida seja paga.”

‘Isso nos atingiu em cheio. Cada rosto estava branco de consternação. Percebemos que agora nossas circunstâncias eram desesperadoras. Houve um longo silêncio. Finalmente, Millet suspirou e disse:

‘“Nada me ocorre– nada. Sugiram algo, rapazes.”

‘Não houve resposta, a não ser que um silêncio fúnebre possa ser chamado de resposta. Carl levantou e andou nervosamente para cima e para baixo por um tempo, então disse:

‘“É uma vergonha! Olhem essas telas: pilhas e pilhas de quadros tão bons como o de qualquer pintor na Europa– não me importa quem seja. Sim, e muitos estranhos interessados disseram o mesmo– ou quase isso, de qualquer forma.”

‘“Mas não compraram”, Millet disse.

‘“Não importa, eles disseram; e é verdade. Olhe o seu ‘Angelus’ ali! Alguém pode me dizer–”

‘“Pff, Carl– Meu ‘Angelus’! Me ofereceram cinco francos por ele.”

‘“Quando?”

‘“Quem ofereceu?”

‘“Onde está ele?”

‘“Por que você não aceitou?”

‘“Calma– não falem todos ao mesmo tempo. Eu achei que ele daria mais– eu tinha certeza– parecia que sim– então eu pedi oito.”

‘“Bem– e então?”

‘“Ele disse que voltaria a me procurar.”

‘“Macacos me mordam! Por quê, François–”

‘“Ah, eu sei– eu sei! Foi um erro e fui um tolo. Rapazes, minha intenção era a melhor; vocês me entendem, e–”

‘“Bom, é claro que sabemos disso, abençoado seja o seu coração; mas não seja um tolo novamente.”

‘“Eu? Eu gostaria que alguém aparecesse e nos oferecesse um repolho por ele– vocês veriam!”

‘“Um repolho! Não, não mencione isso– eu chego a salivar. Fale de coisas menos tentadoras.”

‘“Companheiros,” disse Carl, “essas pinturas são desprovidas de mérito? Me respondam isso.”

‘“Não!”

‘“Não seriam elas do mais grande e digno mérito? Me respondam isso.”

‘“Sim.”

‘“De tão grande e digno mérito que, se um nome ilustre fosse atribuído a elas, seriam vendidas por preços esplêndidos. Não é verdade?”

‘“Certamente é. Ninguém duvida disso.”

‘“Mas– eu não estou brincando– não é verdade?”

‘“Sim, é claro que é– e nós não estamos brincando. Mas de que adianta? De que adianta? Que importância tem isso?”

‘“Dessa forma, camaradas– atribuíremos um nome ilustre a elas!”

‘A conversa animada parou. Os rostos se viraram inquisitivamente para Carl. Que tipo de pegadinha era aquela? Onde conseguiríamos um nome ilustre? E quem o emprestaria?”

‘Carl sentou e disse:

‘“Bom, eu tenho algo bastante sério para propor. Penso que seja a única maneira de nos livrar da sarjeta, e acredito que seja uma maneira garantida. Baseio essa opinião em certos fatos multitudinários e há muito estabelecidos da história humana. Acredito que meu plano deixará todos nós ricos.”

‘“Ricos! Você perdeu a cabeça!.”

‘“Não, não perdi.”

‘“Sim, você perdeu– perdeu a cabeça. O que você chama de rico?”

‘“Cem mil francos para cada.”

‘“Ele perdeu a cabeça. Eu sabia.”

‘“Sim, ele perdeu. Carl, a privação foi demais para você, e–”

‘“Carl, você deve tomar uma pílula e se deitar agora mesmo.”

‘“Façam um curativo nele antes– enfaixem a cabeça, e então–”

‘“Não, enfaixem os tornozelos dele; o cérebro está escorrendo há semanas– já notei.”

‘“Calem a boca!” disse Millet, com severidade ostensiva, “e deixem o rapaz dizer o que quer. Pois bem– nos diga o seu plano, Carl. O que é?”

‘“Bem, certo, à guisa de preâmbulo peço que notem este fato da história humana: que o mérito de muitos grandes artistas nunca foi reconhecido até depois que estivessem esfomeados e mortos. Isso aconteceu com tanta frequência que me atrevo a fundar uma lei para isso. Esta lei: que o mérito de todo grande artista desconhecido e negligenciado deve e será reconhecido e suas pinturas atingirão altos preços depois de sua morte. Meu plano é este: devemos tirar na sorte– um de nós tem que morrer.”

‘A observação nos atingiu tão calma e inesperadamente que quase esquecemos de pular. Então houve um novo coro selvagem de recomendações– recomendações médicas– para o auxílio do cérebro de Carl; mas ele pacientemente esperou a euforia abrandar e continuou a falar do seu plano:

‘“Sim, um de nós tem que morrer, para salvar os outros– e a si mesmo. Tiraremos na sorte. O escolhido será ilustre, e todos nós seremos ricos. Fiquem quietos, agora– fiquem quietos; não interrompam– Eu digo que sei do que estou falando. Aqui segue a ideia. Pelos próximos três meses aquele escolhido para morrer pintará com toda a sua energia, aumentando seu estoque o máximo que conseguir– não quadros, não! Esqueletos, estudos, partes de estudos, fragmentos de estudos, uma dúzia de pinceladas em cada– sem sentido, é claro, mas seu, com sua assinatura neles; produzirá cinquenta por dia, cada um contendo algum maneirismo ou peculiaridade facilmente identificável como seu– essas são as coisas que vendem, vocês sabem, e são colecionadas por preços fabulosos nos museus do mundo, depois que o homem se vai; teremos uma tonelada deles prontos– uma tonelada! E todo esse tempo o resto de nós estará ocupado sustentando o moribundo e convencendo Paris e os negociantes– preparativos para o evento vindouro, você sabem; e quando tudo estiver afinado e afiado, vamos surpreendê-los com a morte e fazer o notório funeral. Entenderam a ideia?”

‘“N-não; pelo menos, não to–”

‘“Não totalmente? Vocês não veem? O homem não morre de fato; ele muda seu nome e desaparece; enterramos um boneco e choramos por ele, com todo o mundo para ajudar. E eu–”

‘Mas não o deixaram terminar. Todos irromperam em um enérgico viva de aplauso; e todos pularam e festejaram pelo quarto e se penduraram no pescoço um do outro em arroubos de gratidão e alegria. Por horas falamos sobre o grande plano, sem nunca sentir fome; e enfim, quando todos os detalhes haviam sido combinados satisfatoriamente, tiramos na sorte e Millet foi eleito– eleito para morrer, como dissemos. Então raspamos o tacho e reunimos aquelas coisas de que a pessoa não se livra até que as esteja apostando contra a riqueza vindoura– quinquilharias sentimentais e coisas assim– e as penhoramos para obter o suficiente para um desjejum e uma janta de despedida, ainda que frugais, e ainda uns poucos francos para a viagem e uma pilha de nabos e afins para Millet viver por alguns dias.

‘Na manhã seguinte, bem cedo, nós três saímos, logo depois do desjejum– a pé, é claro. Cada um de nós carregava uma dúzia dos pequenos quadros de Millet, com a intenção de vendê-los. Carl partiu para Paris, onde começaria o trabalho de consolidar o nome de Millet até a chegada do grande dia. Claude e eu nos separaríamos e nos dispersaríamos pela França.

‘Bem, vai lhe surpreender saber que coisa tranquila e confortável nós arranjamos. Andei dois dias antes de começar os negócios. Então comecei a pintar uma casa de campo nos arredores de uma grande cidade– porque vi o proprietário parado em um terraço. Ele desceu para olhar– achei que o faria. Trabalhei rápido, na intenção de mantê-lo interessado. Ocasionalmente ele soltava uma exclamação de aprovação, e dali a pouco falava com entusiasmo, e disse que eu era um mestre!

‘Larguei meu pincel, enfiei a mão na bolsa, tirei um Millet e apontei a assinatura no canto. Eu disse, orgulhosamente:

‘“Suponho que você reconhece isso? Bem, ele me ensinou! Não é surpresa que eu entenda do meu ofício!”

‘O homem pareceu culposamente embaraçado, e ficou em silêncio. Eu disse, com pesar:

‘“Você não pode estar insinuando que não conhece a assinatura de François Millet!”

‘É claro que ele não conhecia aquela assinatura; mas se tornou o homem mais agradecido que você já viu por ser liberado daquela posição desconfortável em termos tão tranquilos. Ele disse:

‘“Não! É claro que é de Millet, sem dúvida! Não sei no que eu estava pensando. É claro que agora a reconheço.”

‘Em seguida, ele quis comprar o quadro; mas eu disse que embora não fosse rico eu não era tão pobre. No entanto, no fim, o deixei ficar com ele por oitocentos francos.’

‘Oitocentos!’

‘Sim. Millet o teria vendido por uma costeleta de porco. Sim, eu consegui oitocentos francos por aquela coisinha. Eu gostaria de poder pegá-la de volta por oitenta mil. Mas esse tempo já passou. Fiz uma pintura muito bonita da casa daquele homem e quis oferecê-la para ele por dez francos, mas aquilo não teria cabimento, já que eu era o pupilo de tamanho mestre, então a vendi para ele por cem. Mandei os oitocentos francos direto para Millet daquela cidade e parti novamente no dia seguinte.

‘Mas eu não andei– não. Eu cavalguei. Tenho cavalgado desde então. Vendi um quadro todo dia, e nunca tentei vender dois. Eu sempre dizia ao meu cliente:

‘“Sou um tolo por vender qualquer quadro de François Millet, pois aquele homem não vai viver três meses, e quando ele morrer seus quadros não poderão ser adquiridos de jeito algum.”

‘Tratei de divulgar o máximo possível este pequeno fato, e preparar o mundo para o evento.

‘Fui o responsável pelo plano de vender os quadros– foi minha ideia. Sugeri naquela última noite quando estávamos delineando nossa campanha, e nós três concordamos em tentar com algum afinco antes de adotar outra estratégia. Deu certo para todos. Eu andei apenas dois dias, Claude andou dois– ambos com receio de tornar Millet celebrado muito perto de casa– mas Carl andou apenas meio dia, o patife astuto e inescrupuloso, e depois disso ele viajou como um duque.

‘De vez em quando nos encontrávamos com um editor do interior e começávamos a circular uma nota pela imprensa; não uma nota anunciando que um novo pintor havia sido descoberto, mas uma nota que deixava claro que todos conheciam François Millet; não uma nota elogiando-o de qualquer maneira, mas meramente uma palavra a respeito da presente condição do “mestre”– às vezes esperançosa, às vezes abatida, mas sempre marcada pelos medos do pior. Nós sempre marcávamos esses parágrafos e enviávamos os jornais para todas as pessoas que haviam comprado quadros de nós.

‘Carl logo estava em Paris, e ele ajeitou as coisas de maneira exemplar. Fez amizade com os correspondentes e fez com que a condição de Millet fosse noticiada na Inglaterra e em todo o continente, e na América, e em todo lugar.

‘Ao cabo de seis semanas, nós três nos encontramos em Paris e decidimos fazer uma pausa, e paramos de requisitar de Millet quadros adicionais. O rebuliço era tão grande, e tudo tão propício, que vimos que seria um erro não agir agora, naquele momento, sem esperar mais. Então escrevemos para Millet ir se deitar e começar a definhar bem rápido, pois gostaríamos que ele morresse em dez dias se pudesse se aprontar.

‘Em seguida fizemos as contas e descobrimos que entre nós havíamos vendido oitenta e cinco pequenos quadros e estudos, e tínhamos sessenta e nove mil francos para mostrar por isso. Carl havia feito a última venda, a mais brilhante de todas. Ele vendeu o “Angelus” por vinte e dois mil francos. Como o glorificamos!– não prevendo que eventualmente chegaria o dia em que a França lutaria para consegui-lo e um estranho o capturaria por quinhentos e cinquenta mil, à vista.

‘Tivemos um jantar com champanhe de encerramento naquela noite, e no dia seguinte Claude e eu fizemos as malas e partimos para cuidar de Millet em seus últimos dias, para manter intrometidos fora da casa e mandar boletins diários para Carl, em Paris, com fim de publicação nos jornais de vários continentes, alimentando um mundo à espera de notícias. O triste fim chegou finalmente, e Carl estava lá a tempo de ajudar nos últimos ritos fúnebres.

‘Você lembra daquele grande funeral, e a comoção que causou por todo o globo, e como os ilustres dos dois mundos compareceram e prestaram seus pesares. Nós quatro– ainda inseparáveis– carregamos o caixão, e não permitimos que ninguém ajudasse. E estávamos certos quanto a isso, porque não havia nada dentro dele a não ser uma estátua de cera, e qualquer outro portador de caixão teria estranhado o peso. Sim, nós quatro, que havíamos afavelmente compartilhado a privação juntos nos duros tempos agora para sempre acabados, carregávamos o cai–”

‘Que quatro?’

‘Nós quatro– pois Millet ajudou a carregar seu próprio caixão. Disfarçado, claro. Disfarçado como um parente– um parente distante.’

‘Surpreendente!’

‘Mas ainda assim verdadeiro. Bem, você lembra como as pinturas valorizaram. Dinheiro? Não sabíamos o que fazer com ele. Há um homem em Paris hoje que possui setenta quadros de Millet. Ele nos pagou dois milhões de francos por eles. E quanto à enxurrada de esqueletos e estudos que Millet produziu durante as seis semanas que estivemos na estrada, bem, te surpreenderia saber a cifra pela qual os vendemos hoje em dia– quer dizer, quando consentimos em nos separar de um deles!’

‘É uma história maravilhosa, perfeitamente maravilhosa!’

‘Sim– no fim das contas é isso.’

‘O que aconteceu com Millet?’

‘Você consegue guardar um segredo?’

‘Consigo.’

‘Você lembra do homem para o qual chamei sua atenção na sala de jantar hoje? Aquele era François Millet.’

‘Meu–’

‘Deus! Sim. Ao menos uma vez eles não deixaram um gênio morrer de fome e depois colocaram em outros bolsos as recompensas que ele deveria ter para si. A este passarinho não foi permitido esgotar seu coração em cantorias sem ser ouvido e depois receber como pagamento a pompa fria de um grande funeral. Nós garantimos isso.’


Nota do tradutor

Jean-François Millet (1814 – 1875) existiu de fato e foi um importante pintor do movimento realista, cuja obra é marcada sobretudo pelas pinturas de camponeses no interior francês. O Angelus, sua obra mais conhecida, foi disputada entre colecionadores dos Estados Unidos e da França anos após sua morte, como aludido no conto. Esta disputa, famosa pelo contraste entre o alto valor que atingiu o quadro e as condições miseráveis da família de Millet, foi a principal motivação por trás da criação da lei Droit de Suite, que exige que a cada revenda parte dos direitos autorais da obra seja repassada ao autor ou seus herdeiros. Até hoje é válida em toda a Europa. Nos Estados Unidos, atualmente, a lei análoga a essa foi revogada, e o autor recebe os direitos apenas na primeira venda.

Jean-François_Millet_Angelus
Angelus – François Millet

A Droit de Suite foi apresentada formalmente em torno de 1893, data de publicação do conto. Twain construiu essa história (ele morava na Europa na época), sem dúvida, para sensibilizar os leitores acerca da sua importância, que tencionava resguardar os “artistas esfomeados”. Twain, um crítico social contumaz, não raro usava suas peças ficcionais como parábolas de suas crenças, ou metáforas claras de sua visão de mundo. O Angelus está atualmente exposto no Museu de Orsay, em Paris.


MarkTwain

Mark Twain (1835 – 1910), pseudônimo de Samuel Longhorne Clemens, foi um escritor, jornalista, orador e crítico literário norte-americano. É lembrado sobretudo por seus romances As Aventuras de Tom Sawyer (1876) e Aventuras de Huckleberry Finn (1885), este último considerado por muitos estudiosos como o primeiro “grande romance americano”. Twain escreveu, além de 11 romances, vários relatos de viagem, contos, poemas e ensaios. Ganhou uma quantia substancial de dinheiro com a literatura ainda em vida. Investimentos furados o levaram a declarar falência em 1894; alguns anos mais tarde se recuperou financeiramente.

Ele Está Vivo ou Está Morto? foi publicado em 1893, e em 1898 foi adaptado pelo próprio Twain como um roteiro para teatro, com o título encurtado de Is He Dead? (Ele Está Morto?). No entanto, a publicação da dramaturgia só ocorreu em 2003 (os manuscritos de Twain são mantidos na Universidade da Califórnia em Berkeley) e sua primeira encenação foi aos palcos em 2007. No conto é possível notar várias de suas marcas estilísticas: o humor afiado, o ouvido para o diálogo, a narrativa fluida e, sobretudo, as críticas que imputava em vários de seus contos através dos personagens. Neste caso, mais notadamente, o verdadeiro valor da arte e o reconhecimento dos artistas.

Twain viajou por quase todo o mundo, aceitando convites para fazer discursos e palestras. Seu bom-humor e perspicácia em tais eventos o tornaram célebre e uma espécie de precursor da comédia stand-up. É considerado um dos mais importantes escritores e pensadores do seu país. Já foi chamado por William Faulkner de “pai” da literatura norte-americana e Ernest Hemingway disse que “toda a literatura norte-americana descende de Huckleberry Finn”. É creditado como o primeiro a abraçar a fala cotidiana dos conterrâneos, cheia de gírias e maneirismos, e imortalizá-la nas letras, colorindo sua prosa e regionalizando-a. Em domínio público, suas obras podem ser encontradas na internet, no idioma original. As mais conhecidas, incluindo contos e ensaios, já foram traduzidas no Brasil. [Suspeito, mas não tenho certeza, que esta é a primeira tradução de Is He Living or Is He Dead? para o português.]

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